segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Especial: Futebol.


Encantos e desencantos.

Alcimar Antônio de Souza.
Advogado.

Estimulado por amigos, ainda pequeno passei a torcer pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. Numa época de pouca tecnologia a serviço da comunicação social e de muita miséria pelo Nordeste brasileiro, cresci ouvindo os jogos do Vasco pelo rádio, e apenas vez por outra tinha o prazer de ver o time da cruz de malta na televisão, que até muitos anos da minha vida era a de algum vizinho ou de algum conhecido, que financeiramente era mais abastardo.

No dia seguinte ao de cada rodada do Campeonato de Futebol do Rio de Janeiro, ou do Campeonato Brasileiro, ou de outra competição da qual o Vasco estivesse participando, eu ouvia logo cedo a resenha esportiva da Rádio Rural, apresentada dentro de um jornal diário, e perto das 13 horas ainda corria para alguma residência próxima para assistir a um conhecido programa esportivo, no intuito de novamente saber as notícias do futebol e, de modo particular, do meu Vasco.

Cultivei o hábito ao longo da vida. Sempre que posso, vejo as partidas do Vasco pela televisão e ainda acompanho de perto o noticiário em torno dele.

Em casa, quando infantil, meu tio Severino costumava me levar para assistir a partidas do futebol amador, pois ele, Teixeirinha e meu tio-avô Dedé (ou Bode Velho) eram alguns dos que conduziam com muita dificuldade mas com muito amor o futebol amador em Messias Targino. O problema era que ele era torcedor do Corinthians e no Rio de Janeiro esboçava um apreço pelo Botafogo. Mas, até por profundo respeito a ele, nunca sequer discutimos por isso.

Para um torcedor apaixonado, a melhor música para os ouvidos é o hino do seu clube de coração bradado após cada conquista. Foi assim, por exemplo, em 1982, quando o Vasco derrotou o Flamengo por 1 a zero num Maracanã abarrotado de gente, na final do Campeonato de Futebol do Rio de Janeiro. O gol foi de Marquinhos, de cabeça, aos três minutos do segundo tempo, após cobrança de escanteio, em antecipação ao excelente goleiro rubro-negro Raul Plasma. O treinador do Vasco era Antônio Lopes.

Em 1989, com gol de Sorato na partida final, o Vasco conquistou o seu segundo Campeonato Brasileiro. O primeiro título nacional havia sido ganho em 1974, quando eu só tinha dois anos de idade e não entendia nada de futebol.

Também assisti àquela sequência histórica de conquistas do Gigante da Colina, que foi campeão brasileiro de 1997 (num ano espetacular do goleiro Carlos Germano e do atacante Edmundo), campeão do Rio de Janeiro de 1998 e campeão da Taça Libertadores da América de 1998 (ano de atuações memoráveis de Juninho Pernambucano). O técnico de tantas conquistas era Antônio Lopes, que para os dias de hoje estaria ultrapassado, segundo muitos.

No ano seguinte, 1999, o Vasco estava novamente no lugar mais alto de uma competição, conquistando mais uma vez o Torneio Rio-São Paulo.

E logo no ano seguinte, 2000, o Vasco era novamente campeão brasileiro, pela quarta vez, desta feita sobre o São Caetano.

Também chorei de alegria quando o Vasco, após terminar o primeiro tempo perdendo por 3 a zero para o Palmeiras, virou o jogo no segundo tempo e foi campeão da Copa Mercosul, pelo inacreditável escore de 4 a 3. Romário foi o condutor do Gigante naquela noite épica do Clube de Regatas Vasco da Gama.

Em 2011, chorei disfarçadamente após a conquista da Copa do Brasil pelo Vasco. Disfarcei porque ao meu lado estava o meu filho mais velho, João Vítor, vascaíno por livre escolha dele próprio.

Mas a paixão pelo Vasco da Gama não vem apenas por seu futebol, que já foi tão vistoso em tempos atrás. A sua história também me prende à sua bandeira. Fundado em 21 de agosto de 1989, o Vasco da Gama despertou para o futebol anos à frente, numa época que o esporte bretão era, no Brasil, praticado apenas pelos filhos da elite econômica. Se os demais clubes do Rio de Janeiro estavam – como estão – em áreas consideradas mais nobres, o Vasco estava lá do outro lado da cidade carioca, em meio ao povão.

E foi nesse contexto que o Vasco da Gama foi o primeiro clube do Rio de Janeiro – e provavelmente do Brasil – a aceitar em seus quadros pessoas muito pobres e, principalmente, negros.

A construção de São Januário é outro marco belíssimo na história do Vasco. Como os outros clubes do Rio de Janeiro não queriam que o Gigante da Colina participasse do campeonato estadual de futebol, mesmo tendo conquistado o acesso dentro de campo, inseriram no regulamento do torneio a regra segundo a qual os times deveriam ter seus próprios estádios, para mandarem seus jogos, sob pena de exclusão. Foi então que a grande massa vascaína se uniu e, num grande mutirão, com muitas doações e com muito trabalho, construiu o Estádio de São Januário, que por muitos anos foi o maior do Brasil e até da América do Sul.

De jogadores que vestiram a camisa do clube e foram ícones no Vasco e no futebol como um todo, temos vários. Lembro-me no momento de Roberto Dinamite (pra mim, o melhor de todos), Edmundo, Romário, Pedrinho, Felipe, Geovane, Valdir Bigode, Carlos Germano, Dênner (mesmo que de curta passagem pela vida, pois morreu muito cedo), e muitos outros que se encontram registrados para sempre na história do Clube.

No entanto, desde os primeiros anos do século 21, a grande torcida do Vasco anda triste. Afora algumas poucas conquistas obtidas dentro das quatro linhas nos últimos anos, temos assistido a uma sequência interminável de péssimas administrações do clube, com resultados que se refletem diretamente no rendimento esportivo. Prova disso é que num curto intervalo de tempo o Clube teve que disputar três séries B do Campeonato Brasileiro de Futebol (segundo divisão do torneio nacional), além de ficar de fora, por anos, de competições internacionais.

Infelizmente, desde que o grupo político de Eurico Miranda chegou ao poder central do Vasco da Gama, o clube só agoniza. Arrogância, prepotência, pensamento arcaico, desrespeito à torcida, desrespeito à imprensa, falta de transparência e truculência são algumas das péssimas qualidades de Eurico e de sua turma.

Foram cerca de quinze anos de gestão quase ditatorial de Eurico Miranda, com intervalo para um breve período administrativo de Roberto Dinamite, que, se como jogador havia sido certamente o maior talento vascaíno, como gestor esportivo foi um fiasco.

Agora, a torcida como um todo esperava uma mudança, mesmo sabendo da injustiça que marca o processo eleitoral do Vasco da Gama, um amontoado de normas antigas e antidemocráticas criadas lá atrás, quando talvez lá atrás, no tempo, até se justificassem, mas que não cabem mais em dias atuais.

Em novembro do ano passado, os sócios do Vasco da Gama elegeram a chapa que tinha Júlio Brant como nome para a presidência, do qual Alexandre Campello seria o seu vice-presidente geral.

Por causa de fraudes eleitorais provadas na Justiça e que só beneficiavam o grupo – adivinhem – de Eurico Miranda, o processo eleitoral do Vasco da Gama virou um caso de polícia e quase não teve fim.

Mas, finalmente, neste dia 19 de janeiro de 2018, por determinação judicial, o Conselho Deliberativo do Clube, formado por 150 conselheiros eleitos no “primeiro turno” e 150 conselheiros natos (de cadeira cativa), elegeu o presidente da instituição.

Vencedor num primeiro momento, Júlio Brant foi traído por seu companheiro de campanha de primeiro turno, Alexandre Campello, e foi derrotado por este próprio, votando o Conselho Deliberativo, por maioria, contra a expressa vontade dos sócios e da imensa torcida vascaína.

Campello chegou sozinho à vitória? Não, de última hora se aliou ao grupo de Eurico Miranda e Euriquinho Miranda, pai e filho, mantendo no Clube a continuidade de uma gestão que só o destruiu, que só lhe fez mal.

A torcida ficou decepcionada, frustrada, irresignada, pois sabe que pelo menos os três próximos anos do Vasco da Gama serão de atraso, conservadorismo, mais do mesmo.

O golpe eleitoral sofrido pela democracia no Vasco me fez lembrar outro, também “legalizado”. E então entendi que, também no futebol, a face podre da política continua em alta.

Sei que, pelos anos vindouros, dificilmente ouvirei o hino do Vasco ao final das competições, como indicador de suas conquistas, que certamente não virão. Sei que nós, vascaínos, continuaremos a sofrer a chacota da boa rivalidade de nossos adversários, que administrativamente estão melhores do que nós, do Vasco.

Mas continuarei aqui, como sempre estive, torcendo pelo Vasco. Ganhando ou perdendo, continuarei a vestir a camisa da cruz-de-malta. Já não terei o mesmo entusiasmo de outrora, mas como torcedor sou como aquele jovem apaixonado pela mocinha: uma simples conquista, talvez, já me traga de volta.


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