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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Especial:João Andrade: o vergado arco da geometria nos objetos de arte.

 Por Márcio de Lima Dantas.


Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nella ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?


Fernando Pessoa





João Andrade (Natal, RN, 1962), desde pequeno, já criava imagens, mas não ficava só nisso. Procurava enxergar aquilo que não era visto por parte da população. Uma coisa é olhar, outra é ver, enxergar. E assim o fazia, buscando no seu entorno: nuvens, raízes, manchas, por assim dizer. 

Também não sabia os motivos que o impulsionavam a seguir esses vetores, sabia que vinha de suas entranhas, dos lados recônditos do seu íntimo, das vísceras. Talvez não tenha havido época tão propícia a ser representada pela arte abstrata, ou seja, romper com o realismo acadêmico, encontrando os objetos a serem postos nas telas, por exemplo. Quer seja o Geometrismo Abstrato ou o Geometrismo Lírico, no sentido de que a realidade, com grande força, se permite não ser retratada, haja vista uma dificuldade que inibe o papel de sempre detido da arte: propor uma outra forma de ser, determinar outro mundo, outras divisões, reorganizar, tendo em vista o fato de que a convivência com o tangível, aquilo que se apalpa através dos sentidos, não mais satisfaz. Então, eis uma outra realidade, mas que todos sabem que é coisa de um mundo inventado. A arte é essa outra coisa, é esse jeito de ser diferente, mesmo que não passe de pura abstração ou metáfora. O que interessa é um outro lugar, mesmo que seja uma tela em uma parede. Em uma época como a nossa, proporcionadora de emergir construtos artísticos mais relacionados às formas que não existem, chegando aos limites de reter paralelo à realidade, com parecenças que remetam a objetos de uma realidade que nos circunda. 

Quando quase todos, em uníssono, indagam-se sobre o que se passa nessas horas que mais se assemelham a uma espécie de ponto de mutação, de transformação, de um devir que também tantos buscam: onde se vai parar ou quais serão as formas de ser ou estar, de indumentárias bizarras, de alfaias recobrindo os altares onde poucos tentam buscar respostas. A grande maioria segue sem deixar rastros.

O certo é que predominam no perímetro do terreno no qual a arte sempre encontrou seu tino e seu viés, de emergir tendo em vista as terras férteis, de onde reverberam seus arbustos, suas folhas e suas flores. Isso é o que sempre ficou conhecido como Abstracionismo Lírico, formas nas quais predominam as ondulantes linhas curvas, em tentativas vãs de imitar o que circunda na chamada realidade, nunca alcançando esses informes fenômenos ou objetos estáticos, como se fossem monólitos fincados, em uma espera silenciosa, nos chãos áridos das terras ermas. Ademais, pode-se acrescentar elementos, tais como a texturização: dar relevo com massa ou tinta a uma superfície da tela. Ou ainda, modelagem sobre tela: fazer o molde em relevo de uma peça (um rosto) sobre a tela. 

E para encerrar, podemos evocar os trabalhos nos quais, mesmo sendo de natureza abstracionista lírica, sucede uma parcimônia de meios para organizar um trabalho com espesso minimalismo e grande simplicidade, fazendo saber através de cores vibrantes como se escorressem dentro de limites estritos, de retângulos verdes ou de um azul-real, reverberando sua luminosidade e cintilação, reforçadas pelo intenso contraste de um vermelho sangrando gotas, a descer na vertical. O melhor disso tudo é o quanto simples pode vir a ser uma obra de arte, quando se faz uso de poucos ornamentos, quando as tintas sangram apenas para um lado, proclamando no seu deslizamento uma vereda de salpicos e poucos Campos de Cores a serem preenchidos, já que o emprego de algumas cores basta por si, pela sua magnificência, por tão pouco o quanto foi feito uso. 
E assim basta para circunscrever a planície que uma ideia havia de antemão determinada, sem maiores elementos decorativos, pausada em linhas quase sempre curvas. Fazendo ver, reiterando que não passa de Geometrismo Lírico, cuja opulência insiste em afirmar a predominância da linha curva, de meios circundantes, das formas orgânicas e de quase nenhuma atração pelos ângulos retos, lançando sua simbologia para a delicadeza, feito sépalas e pétalas de flores. 


















quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Especial: Sarah: a paz do branco e a empatia do amarelo proclamam o silêncio

Por Márcio de Lima Dantas.


E esta ânsia de viver, que nada acalma,

E a chama da tua alma a esbrasear

As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca




Sarah (Natal, RN, 1986). Quem sabe ela poderá falar por si, já que seu domínio da língua portuguesa é de uma grande elegância e plena de ideias que desenvolve de maneira escorreita: “Na minha vivência, não separo o fazer artístico do próprio movimento da vida. Acredito, inclusive, que a maioria das infâncias evidencia pequenos artistas e cientistas. No entanto, o desenvolvimento da arte a partir de uma perspectiva técnica começou mais recentemente, quando passei a aquarelar em busca de novos resultados, por volta de 2015”.

Nada mais tangível do que a assertiva concernente a determinadas crianças que já nascem assinaladas para percorrer as veredas do dom artístico ou mesmo a capacidade de tomar atitudes face às ciências naturais, engendrando a posteriori pesquisadores de múltiplas áreas. É como se o germe, desde a mais tenra infância, buscasse o despertar de atravessar determinadas veredas, como se não houvesse outro caminho. Para tanto, o espírito se organiza paulatinamente até fechar determinados ciclos vinculados a certas áreas do conhecimento. Assim também vigoram os vetores da arte, da mesma maneira que os cientistas, como se fosse uma obrigação a cumprir, diferente de outros indivíduos que seguem mais uma linearidade do viver, limitando-se a nascer, crescer, se reproduzir e, finalmente, falecer. Outros buscam certos caminhos que os fazem inventar, descobrir ou se expressar através da arte e dos seus meios, enriquecendo a realidade por meio de um acréscimo que outorga outra forma, outra maneira de ser, outra maneira de retratar o que seria bastante diferente do real que se apresenta na sua rotina e na sua entrega de vivenciar o que todos repetem, como se fosse um refrão mais do que tedioso.

Vejamos como isso se expressa na obra da artista visual Sarah. Ela traduz para o papel ou para as telas sempre os mesmos temas, os mesmos referentes, com um discreto hieratismo: vasos com flores e folhas e folhagens, pássaros solitários, ladeados por delicados arbustos. Ou seja, mantém suas preferências em um vocabulário que, ao mesmo tempo, nada inova, mas também não se permite repetir-se ou imitar-se. Torna-se diferente por uma paleta de tons sempre com nuances delicadas, de bege, creme ou marfim. Imprime na tela ou no papel uma suavidade e delicadeza que suspende tudo o que é retratado para uma planície na qual hiberna como se fosse. A cor creme é o resultado da fusão da cor branca com a cor amarela, detendo uma simbologia cuja fusão resguarda a pureza e a placidez que aporta em si, quando límpido. De outra parte, se achega a cor amarela com seu viés de empatia e receptividade. Essa mescla só pode resguardar algo suave e de grande preciosidade. A artista manuseia várias técnicas, quer seja lápis de cor, aquarela, óleo sobre tela e acrílica sobre tela, nunca se distanciando de sua paleta de tons puxados ao bege, mesmo que algumas cores, como azul, vermelho e lilás, todas muito esmaecidas, pareçam refratar um tanto ou fugir da circunscrição de sua preferência. Ocorre que o uso do delicado desenho e dessas aludidas simbologias torna tudo eivado de uma aura um tanto hierática, paralisada, como se houvesse uma espécie de adorno para constar em alguma parede. Com efeito, essa suposta configuração que se lança em direção ao adorno detém, em uma série de vasos com flores, uma graça, delicadeza e requinte que chegam circundados por molduras duplicadas, determinando uma ousadia que ressalta o vaso com suas flores como fulcro do trabalho, proclamando para onde o olho deve se dirigir, na medida em que é o cerne de cada conjunto. Ou seja, seu ponto básico, circundado por dois pássaros em uma simetria bilateral, chama a atenção pelo amplíssimo silêncio, como se fosse uma busca de estancar o tempo. Daí essa ideia de não haver movimento em quase nada retratado: tudo, desde o menino com duas bananas na cabeça, a mulher com pássaro rodeada de flores vermelhas e folhas verdes, cujos olhos e cujas bocas nada aparentam de um esboço qualquer de movimento.

Apenas quedam-se a mirar em uma espécie de torpor, perfazendo um semblante que mais parece medir uma longínqua distância, sem nada insinuar ou esboçar qualquer coisa que não seja o não-dizer, a quietude de quem resguarda nenhum segredo.


Há uma outra presença em todo o conjunto da obra de Sarah: é o triunfo da linha curva, imprimindo uma qualidade feminina por oposição à linha com seus ângulos retos. Consabido é que os ângulos retos, nas diversas formas de arte, manifestam-se como o distrito do masculino, por oposição à linha curva, ondulante, orgânica e inquieta. Essas formas de representação estão inscritas no imaginário e nos regem no cotidiano e em nossas trajetórias de vida, manifestando-se através da mitologia e dos arquétipos que se encontram nas mais profundas locas, hiatos e lugares de onde emergem para nossa consciência, por meio das manifestações e expressões da arte ou de outros meios, tais como a linguagem que nos organiza e nos ordena a ser e estar de determinadas maneiras.

Ora, essa assertiva dirá, no nosso caso aqui, como perfazendo planos e cores 
de uma delicadeza, lançando-se para os lados de tudo o que resguarda a calma ou o silêncio, bem diferente da inquietude que se move buscando direções de ventos em uma busca de lançar-se à procura de direções que nem sempre se sabe do que se trata ou sopra qual ventania sem rumo. Em suma, mais vale estar quieto em seu estado de mudez, não que queira obliterar nada, não que queira fazer do silêncio um subterfúgio para esconder determinadas circunstâncias, nem que o silêncio esconda certos segredos, certas formas de ser, preferindo uma quietude que não passa de resguardar-se, para deter o bote da surpresa. Com efeito, é preferível esse tom bege que permeia toda a obra da artista visual Sarah, resultado das bodas do branco da paz e da singeleza do amarelo. Eis aqui o magnânimo do silêncio, através dos olhos, por meio da boca, configurando um semblante de rara beleza, de fina estampa.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Especial: Santos Rufino: narrativas de uma vida em direção ao porto das artes visuais.

 Por: Márcio de Lima Dantas.


O que lavra a sua terra se fartará de pão,  

mas o que segue os ociosos está falto de  

juízo. 

Provérbios, 12:11 



Severino Rufino filho (Olho d’água do Borges RN, 1961) ou Santos Rufino  era o quinto filho, o caçula dos agricultores Severino Rufino da Costa e  Antônia Francisca da Conceição. Não teve nenhum mestre na arte de lidar  com telas, paleta e pinceis. Já exercitava a arte de pintar, sem maiores  compromissos, até que foi convidado para participas do 6º Salão Dorian  Gray. Sua história de vida é assaz interessante e plena de eventos cuja importância  encontrava-se no valor do trabalho, incutido pelos pais de natureza modesta,  trabalhavam nas lavouras. Muito cedo forças do bem e da atitude  congregaram-se para delinear um contorno de um “menino vivedor”. O  trabalho assomou como brisa assoprando para que ocupasse seu tempo na  formação escolar, paralelo a isso, teve início sua relação com o trabalho e a  responsabilidade de rapazinho outorgando uma grande importância, pois  precisava, mesmo sendo um garoto, precisava ajudar nas despesas da casa. Logo bem cedo vendia balas em um tabuleiro, tinha pirulitos enrolados em  um papel enfiado em um palito, feitos de açúcar queimado. A responsável  pela confecção desses pequenos doces em forma de um cone invertido, bem  fininho, era Da. Maria de Antônio Ubaldo. Aos 6 anos começou a dominar  as letras com sua madrinha Vera Lúcia.  Dominou a carta de ABC (1967) e, no ano seguinte, a cartilha com o título  “Upa upa cavalinho”. 1º ano fraco, no primário, com a professora Lindalva  Maria da Cunha, no meio do ano foi promovido para o 1º ano forte, com a  professora Maria Francisca de Oliveira. Sempre destacando-se na turma, diligente face a seus coleguinhas de classe. Tanto na escrita, como na leitura,  o 3º ano foi com a professora Rita Cândido do Carmo. E no ano seguinte  ingressou no 4º ano, com a professora Antônia Pereira da Silva. Enfim, chegou ao 5º ano (1973), com a professora Alaíde Leite da Silva. Ficou sem  estudar no ano de 1974, pois na cidade não havia o curso ginasial. Mais a vida continua, de um jeito ou de outro, para os que se sentem um  tanto assinalados, marcados para debelar as dificuldades, contornar os  obstáculos, através da saudável perseverança que habita o íntimo de alguns.  Era o caso de Santos Rufino. Com 11 anos ganhou uma jumenta com um par  de ancoretas para vender água nas ruas, contribuindo para se manter e ajudar  aos pais com os outros 4 filhos. Com efeito, para ocupar o ano de 1974 a Sra. Maria Gomes de Andrade  trouxe para Olho d’água do Borges o curso de datilografia, tendo se  matriculado, e não foi espanto para ninguém o fato de ter feito o curso sem  a presença do descuido e da apatia, manuseando a máquina, seu  aproveitamento foi que obteve uma média de 850 palavras em 30 minutos. O certo era que tudo o que fazia, fazia bem feito. Em 1975, fez o Exame de  Admissão, passando em 3º lugar para entrar na 5º serie, ou seja, no curso  ginasial. No ano de 1980, foi matriculado na Escola Estadual Dr. Edino Jales (Patu RN), cujo ensino dizia respeito ao segundo grau, cursando o  profissionalizante Técnico em Contabilidade. Foi coroinha dos oito aos doze anos, também membro da Legião de Maria. Hoje é professor aposentado do estado e professor da rede municipal de  ensino. Trabalhou em tudo que se imaginar, cabeleireiro, confeiteiro,  Técnico de enfermagem e de Laboratório (presta serviço, hoje em dia) para  o laboratório da Policlínica de Umarizal, Dr. Guarani Onofre). 

A obra de Santos Rufino é um exercício de um permanente e refinado  lirismo, que encanta pelas temáticas que despertam empatia imediata no  expectador. Trato de lirismo em termos de “Gênero lírico”, concebida a  classificação por Aristóteles, na sua essencial divisão de poesia lírica,  elegíaca, épica e dramática. A poesia épica é a de cunho narrativo (Ilíada e  Odisseia), a dramática é o teatro (tragédias gregas), finalmente temos a  poesia lírica e elegíaca, ambas são de uma mesma natureza, na medida em  que é a expressão de um sentimento de um indivíduo quase sempre isolado  e tratando de aspectos ou formas de ver, sentir e reagir aos fenômenos que o  contornam. Sempre foi bastante claro que não ocorrem os gêneros em seu estado puro.  Acontece sim, de invadirem com suas características, seu ethos, às comarcas  e limites a qual cada um se manifesta em termos de função preponderante,  ou seja, a função da linguagem que sobrepuja as demais para que possamos  proclamar como lírico, épico ou dramático. Todo fenômeno literário, tais  como uma poesia, detém na sua aura um perímetro que vai até certo ponto,  depois, se achega traços de outras formas de poesia, como a narrativa, com  sua eloquência ou como a forma dramática, com seus diálogos. Enfim, qualquer forma de arte é sempre um fenômeno pansemiótico,  congregando vários tipos de sistemas signos pertencentes a outras formas de  manifestações artísticas, sendo que um sempre haverá um sobranceiro. Aqui  nos interessa reter o que existe de lírico na poesia de Santos Rufino.  

Duas telas são bastantes evocadoras desse que se isola em determinado lugar  para melhor tatear o que existe no seu espírito e que favorecem à expressão  de uma subjetividade lírica. Fica difícil tratar de lirismo sem evocar os  momentos nos quais a poeta Sapho de Lesbos compôs suas canções (contemporânea de Pítaco e de Alceus). Seria a matriz e nutriz do século VI para diante. Encarnou com propriedade a chegada do gênero lírico, já que até ela havia  tão-somente o épico e o dramático. Isso sucedeu devido ao Ar do tempo,  flexibilizando o que parecia imutável, ao proporcionar uma separação inicial  do indivíduo com relação à polis. O que podemos chamar de autonomia de  uma subjetividade, o isolar-se em silêncio, em uma benfazeja solitude de  expressar por meios externos o que se passava no interior. Quer dizer, a busca de se encontrar, a procura de adentrar por veredas onde  pudesse chegar a si, ao âmago onde perfilam-se emoções com, se tiver sorte,  descobrir o motivo do desassossego permanente. Assim, com mais conforto,  prosseguir na rotina com suas horas e pausas, tarefas, labutas, e não ficar em  inquietude do espírito, lançando eventuais melancolias e lutos para o corpo,  transformando em enfermidades, em dores sem motivos, em macacoas sem  explicação. Enfim, o corpo como o repositório do que o espirito não consegue dar conta,  resolver, responder, os enigmas. Os ossos e os músculos pagam um preço  alto, apenas sentem. A carne não pensa. Enfim, ocorreu uma individuação de um sujeito que se mira e encontra outras coisas além de um código público  a ser seguido, de leis ou de expectativas de determinado comportamento de  uma mulher da classe dominante da capital de Lesbos, Mitilene. Até então, entre os chamados homens livres (a mulher não tinha o direito de  participar de nada, presa à casa, aos filhos; só uma vez por ano integrava o  cortejo em homenagem a Dionísio, seguindo em direção ao anfiteatro, com  danças, cantos e pandeiros. O cortejo fazia parte do início dos festivais anuais  de teatro, na verdade, era um concurso de tragédias e de comédias. Não havia  prêmio monetário ou de objeto de valor, apenas uma coroa de louros. 

Assim sendo, as pessoas eram integrantes de um todo comunitário, só com a  mudança das relações sociais, foi possível emergir algo que já estava  esboçado nos Ditirambos entoados nos cortejos em homenagem a Dionísio,  e no coro das tragédias, não mais tratando só do que concernia ao conjunto  de pessoas e sua estratificação social. A voz do público, recriminando,  questionando o comportamento do Corifeu, depois é que essa estrutura  evoluiu para personagens dialogando em cena. Ainda sobre o coro, cantavam hinos acerca do comportamento do Corifeu e  das suas reações face ao fato de pertencer a uma comunidade com seus  costumes plenos de ancestralidade. Quero dizer que a partir de certo  momento (ninguém sabe precisar o século, sabe-se apenas que as condições  sociais proporcionaram um substrato para sustentar, como se fosse um  baldrame, essa nova forma do Coral tratando de temas íntimos, de como  repercutia determinados fenômenos como o amor ou o sexo (Eros). Com isso, o Coro passou a discorrer sobre de sentimentos ou emoções  individuais de uma subjetividade que buscava se expressar por meio de um  instrumento chamado Lira, deixando um pouco de lado os questionamentos de o Corifeu não estar de acordo com o código de conduta da urbe. Como  dizemos: encostando contra a parede. Podemos constatar tudo o que dissemos nessas duas telas: A música  interrompida (Anjo com violino e dois pássaros cantando) e Menino com  alaúde e cachorro. O fato de estarem representadas duas crianças, não  homens feitos, já nos chama a atenção para o singelo e para uma entrega total  aos instrumentos como o violino e o alaúde. A inocência e a entrega sem censura de tratar de uma subjetividade,  explorando o mundo interior através de uma linguagem cifrada e plena de  metáforas, metonímias e signos concernentes ao íntimo de um indivíduo.  Sintomático o fato de estarem sozinhos. A referida primeira tela, o anjo menino parou de tocar o violino para ouvir o chirear de dois pássaros que,  provavelmente se achegaram por conta da música. É uma cena idílica e plena  de um lirismo que Essa tela detém uma grande harmonia pictórica, congregada a partir de  apenas quatro cores básicas: o ocre do corpo, o contorno de plantas em verde  e um vermelho intenso, encobrindo o jovem corpo com um panejamento de  grande beleza. A segunda tela, o menino está com um cão aos seus pés, como  se fosse uma companhia. Dedilha o alaúde em grande concentração. 

Existem inúmeras telas com paisagens rurais e bucólicas. Vamos nos  restringir a uma. A casa sede de uma fazenda na área rural entre Patu e Olho  d’água do Borges. Estamos diante de um belo casarão antigo, com sua queda  d’água para a frente, como sempre acontece com as grandes casas-sede de  fazendas das terras áridas do Sertão. 

A herdade é uma obra prima da arquitetura que prevaleceu durante muito  tempo nos ciclos do gado e do algodão. Em todos os sentidos. Vejamos como  está organizada sua geometria. O ângulo no qual o artista tomou para  representar a casa foi muito pertinente no que concerne ao fato de expor todas  as linhas riscadas para a edificação da sede da fazenda Bela Flor. Poucas  cores servem para dar conta da formosura dessa casa plantada nas brenhas  de um sertão vítima de secas cíclicas. Portanto, podemos arrolar as cores: o verde do tapete do gramado que chega  até os batentes das três portas. O branco da casa, sendo que as três portas e  três janelas estão com contornos azul-celeste. O lado direito da casa têm  alguns adornos, como se estivessem à altura do sótão, é apenas uma pequena  janela, com contorno também azul e dois pequenos vasos ornamentais; em  baixo, um losango azul. Resta o telhado marrom, operando um contraste  onde aparecem o branco e o azul.  Podemos compreender a tela a partir das principais linhas que conformam a  casa, que se torna um centro irradiador, tanto das cores como no que diz respeito à ocupação do espaço. A tela está dividida em três planos, cada um  equivalente a um terço. No primeiro terço, prevalece um verde intenso em  um belo gramado que segue para circundar uma cisterna branca, para  reservar água, também existem muitas árvores e arbustos ao redor da casa. O segundo plano é a casa propriamente dita. Com sua entrada principal,  ornada de uma janela e uma porta, com molduras no mesmo tom de azul  encontrado nas aberturas (portas e janelas), essa abundância de espaços  abertos sugere uma total ausência de medo. Além disso, servem para a entrada de alguma descuidada brisa que passe ali  sem rumo, adentre sem permissão, e ascenda para o grande espaço interno  que de propósito foi feito em direção ao pé direito muito alto da casa em duas  águas.  Como se sabe, nos locais onde estavam erguidas as casas-sede de fazendas,  no ermo da caatinga, sertões a dentro, o pé direito logo foi um artifício criado  para refrescar o interior da casa, o vento entrava e vagava um tempo por  dentro. Essas alturas eram forjadas em grandes pilares de madeira, sobre as  paredes internas mais firmes da construção. Recurso extremamente simples  e eficaz. O pedreiro que ergue a casa da fazenda Bela Flor sabia muito bem  das coisas. Dispensava arquiteto. O terceiro plano da tela é um azul celeste  no mesmo tom das molduras de portas e janelas, rimando com suas nuvens  esparsas, com o branco da casa. 

Para encerrar, evoquemos uma metáfora que bem se adequa ao conjunto da  obra de Santos Rufino: a proposta de edificar uma realidade com o máximo  de lirismo, uma proposta com intensidade máxima de elementos lançando  seus vetores simbólicos para lugares onde a harmonia estética de tintas, cores  e formas, substituem, ou melhor, estão no lugar de um outro mundo no qual  o contentamento detém a plenitude em si mesmo. Quero dizer de uma  amiúde insatisfação como o status quo (“o estado das coisas”).  

Não é o papel da arte desde sempre? Engana-se quem pensa que a arte tem  função. Aparece para dispor e apontar uma forma diferente de contemplar o  que nos cerca, o que podemos nominar de “realidade empírica”, quase  sempre absoluta em suas intempéries, dissabores, vicissitudes, tudo o que  nos causa transtorno e vem ao encontro dos nossos sonhos e da noção  particular de felicidade de cada indivíduo. 

Com efeito, as telas resguardam o intuito de detalhar como seria essa  realidade, cada uma desenha e registra um aspecto do amplo perímetro no  qual estão presentes elementos de toda uma sorte de retratos afinados no  mesmo diapasão. O timbre de uma realidade na qual o lírico é proposto como  substrato de uma outra forma de pensar, sentir e agir.  

Há uma infinidade de representações de pássaros, paisagens bucólicas na  área rural, ausência da presença humana, araras, beija-flor, pavão, cisnes,  flores e frutas. A bem da verdade, tudo diz respeito às temáticas, aos  referentes, que integram a História das Artes, sendo que o artista articula à  sua maneira, de acordo com sua experiência pessoal, os percalços pelos quais  teve que enfrentar, e ser perseverante, e ser resiliente, e ser teimoso, e ser  insistente.  Pois quase nada na vida consegue não entregar o que se apresenta como  espécie de baralho. O indivíduo tem que saber jogar com a sintaxe das cartas,  através da compreensão de uma lógica subliminar, na qual cada partida é  uma partida, detém suas peculiaridades. Assim é o jogo da vida. “Vivendo e  aprendendo a jogar” (Guilherme Arantes). 

No que diz respeito aos temas dos quadros, aqui já arrolados, parecem pertencer ao Inconsciente Coletivo da trajetória das artes ao longo da sua  comprida trajetória de estilos históricos, que emergem de acordo com as  condições de vida. A arte instaura-se como ampla planície sensitiva, na qual  nascem suas obras, rebentam e configuram através das imagens uma ruma  de símbolos que dizem respeito a cada indivíduo, mas tem que ver o fato de  um singular organizar um grande coral do plural. 

Urge proclamar que quanto mais universal a obra de arte, maior o seu valor  como estética representativa por meio de formas, texturas, cores, de um todo,  de um expressão que diz respeito não a uma pontuação geográfica ou  temporal. A obra de arte legítima transcende tempo e lugar, chanta seu  número e algarismos nas alamedas que conduzem ao futuro. E o que virá é o  chão onde grandes livros ilustrados mostram com orgulho os nomes daqueles  que não passaram sem deixar seus rastros, seus reclamos, nas rodagens  inscritas nos anais da História da Arte.