Por Márcio de Lima Dantas.
De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
João Cabral de Melo Neto
João Natal (Natal, RN, 1960) consegue imprimir em suas obras algo que parece carregar consigo uma espécie de princípio de nascimento permanente. Não o nascimento compreendido apenas como origem, como instante primeiro em que algo surge do nada, mas aquele movimento contínuo em que as coisas, mesmo depois de existentes, conservam a possibilidade de uma nova aparição. A matéria, nesse estado de permanente devir, nunca se apresenta completamente encerrada em si mesma. Ela guarda uma espécie de silêncio interior, uma potência adormecida que aguarda o gesto capaz de revelá-la. É nesse território de passagem que se situa a produção de João Natal. Sua obra parece nascer de uma escuta atenta daquilo que o mundo cotidiano frequentemente deixa escapar. O papel que todos veem como simples superfície pode conter a promessa do voo; a mala esquecida em algum canto pode carregar uma memória ainda não revelada; o brinquedo, aparentemente reduzido ao universo infantil, pode mostrar uma das mais antigas operações humanas: transformar a realidade através da imaginação. João Natal não parece interessado em impor à matéria uma existência completamente estranha à sua natureza. Existe em sua produção uma negociação delicada entre aquilo que o objeto já é e aquilo que ele pode vir a ser. A forma não nasce de uma violência contra o material, mas de uma aproximação paciente, semelhante ao artesão que conhece as possibilidades ocultas da madeira, do barro ou do tecido porque aprendeu primeiro a observar suas resistências. Antes de transformar, é preciso escutar.
As séries e subséries presentes em sua trajetória parecem justamente uma espécie de experimentação contínua, uma investigação acerca dos limites e das possibilidades dos materiais. Não são apenas conjuntos organizados de trabalhos, mas caminhos de pesquisa através dos quais o artista procura compreender até onde uma determinada matéria pode ser conduzida, o quanto pode dobrar-se, curvar-se, torcer-se, multiplicar-se em formas diversas sem abandonar completamente a lembrança daquilo que era. As séries vêm de então demonstrar o quanto determinado material pode ser dúctil, pode se tornear, perfazendo uma infinidade de jeitos, maneiras, formas, ajuntando às cores uma variedade pictórica que reverbera beleza na dobradura da linha curva. Da linha que se organiza como arquétipo de um eterno feminino, lançando essa metade para que se complemente com os ângulos retos das figuras geométricas. Há nessa relação entre curva e geometria uma das chaves para compreender sua poética. A linha curva parece guardar algo da própria natureza em movimento. Ela aproxima-se do corpo, das formas orgânicas, dos caminhos sinuosos das águas, das raízes que procuram espaço sob a terra, das conchas que crescem lentamente em torno de seu próprio centro. A curva possui memória de vida. Entretanto, ela não aparece isolada. Ao seu lado surgem os ângulos retos, as estruturas geométricas, os limites organizadores do espaço. Não há uma disputa entre essas forças, pois o artista parece buscar mostrar justamente que elas podem não ser contrárias e passam a estabelecer uma convivência possível. Como se a natureza e a construção humana, o impulso e a ordem, o acaso e a medida, encontrassem uma forma de diálogo. Assim sendo, eis a harmonia possível de riscos entrecortados para que, através dessa metáfora, ouse haver as bodas de partes que integram o nosso entorno, o perímetro no qual habitamos em busca de um equilíbrio. Qual seja o que nos conforta, o que nos transmite conforto e sossego de espírito para enfrentar as atribulações dos dias, as rasgadas páginas de um calendário apressado, insistente em seu caminhar ligeiro nas calçadas que rasgam as ruas da existência.
Essa busca pelo equilíbrio talvez seja uma das questões mais profundas da obra do artista. Não se trata daquele equilíbrio imóvel das coisas encerradas e definitivas, mas de uma harmonia sempre ameaçada pelo movimento. A vida permanece porque se ajusta continuamente, o corpo mantém-se de pé porque realiza pequenos deslocamentos invisíveis, a embarcação permanece sobre as águas porque aprende a conversar com a instabilidade das ondas. A arte de João Natal parece nascer dessa mesma compreensão. Nada permanece completamente fixo. Tudo carrega uma possibilidade de transformação. O brinquedo, nesse contexto, ocupa uma posição singular. Observado superficialmente, poderia parecer apenas uma referência à infância, à memória de um tempo perdido ou à recuperação de imagens afetivas. Mas essa leitura reduziria o real significado de sua produção. O brinquedo, antes de ser objeto infantil, é uma das primeiras formas humanas de criação. A criança que dobra uma folha de papel e transforma aquele fragmento simples em um avião realiza uma operação semelhante àquela do artista, percebe uma possibilidade escondida na matéria. O papel continua sendo papel, mas já não é somente papel. Ele passa a conter uma promessa, pois existe nele uma espécie de ausência presente: o voo que nunca aconteceu, mas que se realiza no campo da imaginação. Talvez seja justamente esse instante que interesse a João Natal. O momento anterior à cristalização das coisas. O instante em que o mundo ainda não foi completamente endurecido pelas suas funções práticas e permanece aberto ao espanto. O artista parece retornar constantemente a esse estado inaugural, quando os objetos ainda conservam múltiplos destinos. Sua obra não fala apenas daquilo que as coisas são, mas daquilo que elas poderiam ser. Essa operação aproxima sua produção de uma antiga sabedoria presente nas culturas populares: a capacidade de criar a partir do que está disponível. A inteligência inventiva que nasce não da abundância, mas da necessidade. A transformação do simples em extraordinário.
A cultura popular nordestina sempre carregou consigo essa capacidade de reinvenção. O objeto cotidiano raramente permanece preso à sua função inicial. A madeira torna-se brinquedo. O barro torna-se figura. O tecido torna-se bandeira. O alimento torna-se celebração. O material comum torna se memória coletiva. É dentro dessa lógica que surge a obra Mateus Misterioso — Bordadinhos para Cascudo. Trata-se de uma espécie de homenagem visual ao universo preservado por Luís da Câmara Cascudo, não como simples ilustração de um repertório folclórico, mas como reconhecimento de uma memória profunda do povo brasileiro. O chapéu de couro, o bastão, o chocalho e a pequena cuia de barro não aparecem como objetos isolados, são fragmentos de uma civilização sertaneja. O chapéu guarda a figura do vaqueiro, homem moldado pelo sol, pela distância e pela necessidade de dialogar com uma paisagem muitas vezes áspera. O chocalho, mesmo silencioso na obra, parece conservar dentro dele o som perdido do rebanho atravessando a caatinga. A instalação transforma esses elementos em vestígios. O Sertão não aparece apenas como lugar geográfico, mas como território imaginário onde sobrevivem gestos, crenças e formas de convivência. Os bastidores presentes nessa mesma pesquisa aproximam-se dos estandartes das festas populares. A coroa, o boi, o tambor, os personagens mascarados e os pequenos animais compõem uma espécie de teatro sagrado e profano. O boi que morre e retorna, o ritmo do tambor que convoca a comunidade, o Mateus que habita a fronteira entre o riso e a cerimônia: tudo participa de uma memória coletiva que insiste em permanecer. O brinquedo ocupa lugar fundamental na poética de João Natal. Não como nostalgia de uma infância perdida, mas como lembrança de um estado original da imaginação. A criança que transforma um pedaço de papel em avião realiza uma operação semelhante à do artista: descobre dentro da matéria uma possibilidade escondida. A pipa, o pião, a ciranda, a amarelinha e os jogos de rua aparecem como pequenas cosmologias. Antes de serem brincadeiras, são maneiras de organizar o mundo. A criança desenha caminhos no chão e, por alguns instantes, estabelece uma ordem própria dentro do caos da existência. João Natal parece compreender profundamente essa lógica. Por isso seus elementos populares não aparecem como ornamentos regionais ou como simples referências identitárias. Eles são tratados como formas de pensamento. Cada objeto carrega uma maneira de compreender o mundo. O artista não parece perguntar apenas “o que é esse objeto?”, mas “que outras existências estão escondidas dentro dele?”.
É nesse ponto que surgem as malas utilizadas como suporte em algumas de suas obras. A escolha desse objeto possui uma força simbólica particular, porque a mala já chega ao campo artístico carregada de uma história anterior. Ela não é uma superfície neutra. Antes de receber a intervenção do artista, já tem uma narrativa impregnada a ela. A mala é um objeto de passagem. Ela pertence ao universo das partidas e dos retornos, das distâncias percorridas e dos caminhos imaginados. Guarda roupas, documentos, pequenos vestígios de uma vida. É um recipiente de ausências e expectativas. Quando João Natal transforma a mala em suporte, acontece uma mudança de destino. Aquilo que antes transportava objetos passa a transportar imagens. Aquilo que acompanhava deslocamentos físicos passa a carregar deslocamentos simbólicos. Ela guarda não aquilo que levamos conosco pelo mundo, mas aquilo que construímos para compreender o mundo. Essa operação revela uma característica essencial de sua obra: a transformação nunca apaga completamente o passado da coisa transformada. Pelo contrário, conserva suas marcas. A mala continua sendo mala. O papel continua sendo papel. Mas todos esses elementos passam a habitar outra condição. A arte acontece justamente nesse intervalo. Entre o que permanece e o que muda. Entre aquilo que a coisa era e aquilo que ela pode nascer para ser. Assim, podemos afirmar — sem temer o elogio fácil diante da beleza que salta aos olhos das personagens, nos objetos e nas paisagens presentes na obra de João Natal — que o artista é um exímio senhor dos elementos que recebem essa sagração do fazer, de proporcionar, de dar vazão àquilo que pulsa em seu espírito. Tudo parece nascer com naturalidade, como se a matéria já trouxesse consigo a possibilidade da forma antes mesmo do processo de imaginar a obra.
Visivelmente podemos atestar um traço pleno de domínio, mas também de liberdade. Um traço que não se limita a representar o mundo, mas antes procura descobrir nele aquilo que permanece oculto. Considerando como uma permanente compulsão no traço do artista, somos conduzidos a buscar aquilo que essa recorrência quer dizer, aquilo que essa metáfora cerca ao longo de toda sua obra. Estamos falando da linha curva e da rarefeita linha reta. A linha curva aparece como uma espécie de pensamento constante, uma presença que retorna sem jamais se repetir ou cair na autoimitação. João Natal parece perseguir as inúmeras possibilidades de contemplar a curva/o curvo, seja nos elementos do nosso entorno, seja nas formas encontradas na própria natureza, como se cada nova aparição fosse uma tentativa de revelar um segredo ainda não completamente alcançado. Essa invariante que atravessa sua produção, ora explícita, ora subliminar, talvez busque ressaltar justamente o sentimento que habita as curvas. Não apenas a forma em si, mas aquilo que ela desperta. É possível enxergar algo das linhas opulentas das igrejas barrocas, dos movimentos sinuosos dos ornamentos que parecem querer escapar da rigidez da pedra para alcançar a emoção, o sentimento do espectador. A curva, nesse sentido, não é somente desenho, é uma maneira de convocar o sensível, de aproximar a matéria da experiência interior. O doce popular alfenins surge como pretexto privilegiado para essa deambulação pelos territórios onde a linha curva emerge com maior intensidade. A delicadeza da forma moldada no açúcar, sua aparência frágil e ao mesmo tempo carregada de memória, permite ao artista aproximar-se de uma tradição em que o fazer manual deixa de ser apenas uma escolha estética e passar a revelar uma espécie de estado de espírito. Ressaltar a linha curva, portanto, perfaz um olhar que seja encontrar, no exercício atento da contemplação, aquilo que pode emanar o sentimento adormecido no interior do artista. João Natal parece compreender que as formas não são silenciosas. Elas carregam histórias, afetos e lembranças. Sua obra nasce desse encontro entre matéria e imaginação, entre aquilo que os olhos reconhecem e aquilo que a sensibilidade pressente. Por fim, não esquecer que um ciclo pode ser compreendido como algo que se fecha, como um projeto jaz terminado, como espécie de serpente que engole o próprio rabo. Pode também ser algo alvissareiro, que findou, que encerrou uma etapa e iniciou uma nova. Assim é a gramática da condição humana, não fica ninguém impune. Valete Fratres.












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