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sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Especial: Pacífico Medeiros: resignificando a fotografia


Por Márcio de Lima Dantas 

No fundo, a Fotografia é subversiva, não quando  
aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas  
quando é pensativa. 

Roland Barthes 



Pacífico Medeiros (Natal, 1967) reside desde sempre em Mossoró. Tendo  uma carreira pontuada por diversos cursos e eventos vinculados à fotografia, embora haja nos seus trabalhos uma distância das técnicas utilizadas desde  sempre nesse meio de retratar a realidade. Antes de adentrarmos um pouco mais sobre esse original fotógrafo, cremos  ser necessário voltar no tempo e buscarmos determinadas explicações que  nos ajudem a compreender com mais propriedade e conhecimento alguns estilos de pintura que sofreram impacto quando do surgimento da fotografia. Vejamos. Quando surge a fotografia, por volta de 1826, instala-se uma série  de indagações acerca dessa nova maneira de retratar a realidade. Ao que  parece, não havia o artesanal da pintura, do desenho ou da escultura. A  pintura, mais apressada, sentiu-se emparedada, inquirindo afinal qual era  mesmo sua função, pois sempre ocupou o papel de retratar a realidade, seu  entorno e contornos. Sintomaticamente surge o Impressionismo, deixando a  tela esmaecida ou tão-somente sugerindo, sobretudo, a retratação do  humano.

O recuo de formas bem diferentes, assim como sabia fazer o  Realismo, Romantismo ou Academicismo, engendrou imagens que  necessitavam de recuo físico da tela para que a imagem se desse a observar e conhecer. Basta contemplar a tela de Claude Monet: Impressão, nascer do  sol (1872). Acabada essa digressão, cumpre-nos tratar do ethos da fotografia fora do  comum de Pacífico Medeiros. Refratando modelos, o produto final desse  artista ocorre por meio de uma sobreposição de técnicas advindas de outros  sistemas semióticos, sendo que estas são produzidas através de programas de computadores, em um jogo no qual a fotografia primeva esmaece e é também  ressaltada. Quase sempre emoldurando com contornos dramáticos o retrato  de quem expressa um sentimento ou encontra-se envolvido em atividades de  algum ofício. Tais figuras podem ser duplicadas ou triplicadas em uma  espécie de crescendo, engendrando um belo efeito cromático de preto e  branco sobre figuras geométricas coloridas. 

Com efeito, há que compreender a função de múltiplas técnicas, - passando  pela gramatura do papel e indo buscar um pano-de-fundo nos antigos  mosaicos (ladrilhos) de residências ou igrejas, só para restar em um exemplo,  - essa função perfaz uma aura estética inauguradora de uma nova obra, quem  sabe uma nova ordem de pensar e refletir acerca da realidade.  Quero dizer com isso de uma nova ordem na fotografia, no qual a mensagem,  via meios tradicionais e digitais, assomam no nosso derredor, largando uma  forma monolítica que o retrato em preto e branco ou colorido demanda ao  expectador. Mesmo detendo um eidos estético, com o sumo da mensagem multisignificativo, não esquece de apontar caminhos e pistas a quem está  diante. Bem claro que o significante suplanta e questiona o que se diz,  sugerindo o como.

Sucede um fenômeno nosso momento histórico; como sempre, este, fruto  das condições socioeconômicas que a tudo e todos pintam com suas cores e  nuances. A saber, uma algazarra de informações contidas nas redes sociais,  sintetizadas no nome Internet. Muitos nem conseguem alcançar certas  nomenclaturas e determinados manuseios nos grupos sociais. Contudo,  podemos equacionar da seguinte maneira: tem tudo de bom, tem tudo de  ruim. Nunca esquecendo o mal-estar que bafeja sobre tudo e todos, inclusive  sobre a crítica de arte, ao que parece, em franca extinção. O fotógrafo Pacífico Medeiros optou pela primeira, ousando inscrever suas  fotografias em um amálgama de técnicas oriundas de diversos meios.

Não  deixando de lado o kairos, ou seja, o momento certo, a oportunidade não  perdida de apreender através da objetiva elementos figurativos que irão  compor uma espécie de ponto de fuga: mulheres, homens trabalhando, uma  senhora que aquiesce, por meio das mãos, as vicissitudes do destino.











domingo, 15 de outubro de 2023

Especial: A (meta) pintura de Laércio Eugênio

 

Por Márcio de Lima Dantas 



Laércio Eugênio (Sítio Mata Seca, Frutuoso Gomes, 1959) assenta-se, contemporaneamente, como um dos mais importantes artistas plásticos do  Rio Grande do Norte. Detentor de uma dicção pictórica assaz original no que  concerne aos meios utilizados pela pintura desde sempre. Acontece que o  artista optou por outro caminho, imprimindo à sua obra um tanto de  originalidade, fazendo com que marque um diferencial com relação aos seus  pares. 

Com efeito, suas telas parecem ser puro pretexto para questionar uma  representação realista ou abstrata do mundo que o cerca ou como chegam as emissões do real em seu íntimo. Ora, o que parece almejar é discorrer acerca  do ato de retratar qualquer que seja o tema, em um movimento que se volta  sobre si mesmo, chamando atenção e proclamando, - por meio de precisas  pinceladas mais espessas, ora usando o pincel, ora arrematando com a  espátula, - que o sistema semiótico pintura é uma outra realidade. 

Assim sendo, descobrindo seus próprios meios, ou seja, autodesvelando-se,  em uma atitude que tem muito de crítica, no sentido de que a tela não mais  busca ou salienta o que chamamos de tema, conteúdo ou significado. Vai  valer pelo significante, pela forma, em movimento que se volta sobre si  mesma. Ora, nada mais é do que aquilo que sempre foi a ontologia da Arte:  há que mirar-se na forma, e não no conteúdo. 

A obra do pintor Laércio Eugênio é um discurso que se pretende um “tratado  de pintura”. Eis a tinta ocupando o lugar que seria do desenho, conformando  um possível lugar de volumes quase sempre estáticos, reafirmando o que  dissemos. É uma espécie de contemplar objetos isolados ou em conjunto,  conduzindo o ato de pintar para engendramento de uma outra realidade,  antípoda ao que chamam de real empírico, lugar onde sucede a interação  entre os homens, seus objetos, seus sistemas de valores, suas maneiras de  agir ou representar. E suportando todas as atribulações, sendo espécies de  marionetes, em um eterno embate com as forças que nos chegam à nossa  revelia, impondo mando e jugo. 

Mas eis que temos a arte para nos redimir, uma dimensão outra perpetrada  por uma singular presença no mundo, consignando contornos, inventando  perspectivas, percebendo ângulos inusitados, alterando a ordem ditada pela Ideologia, fazendo-nos crer em uma possível outro jeito de pensar. Enfim, o  que de um imo singular emanou, dessa presença individual chantada nos  logradouros da realidade, de um que ousou pensar diferente e tornou essa  matéria em arte, eis a suprema capacidade de expressar uma pluralidade, um  coletivo, uma etnia, um país, um dado momento histórico e o seu Ar do  Tempo. 

Antes do mais, há que dizer que farei uso livremente das funções da  linguagem propostas pelo linguista russo Roman Jakobson (1896 – 1982).  Sua proposta das funções da linguagem é bastante dúctil, possibilitando que  se analisem outros sistemas semióticos, não apenas a Língua. O termo  Linguagem amplifica-se a todo e qualquer fenômeno da cultura, sendo que à  medida que houve uma evolução dos primeiros agrupamentos humanos de  caçadores e/ou agricultores, a língua foi se impondo como um dos mais  importantes meios de comunicação, dada a sua versatilidade e economia de  paradigmas conformando um sintagma. Quer dizer, um reduzido número de  fonemas é capaz de dar conta de línguas circunscritas a áreas geográficas ou  etnias com o mesmo laço de parentesco. 

Mesmo assim, as artes visuais seguiram paralelas, organizando  representações por meio de escrituras rupestres nos abrigos e cavernas,  também em baixos-relevos sobre o granito, como se tivesse sido riscado pela  mesma pedra. Esses são apenas alguns exemplos. Para além da dimensão  mágico-religiosa, havia a necessidade de expressão de um indivíduo à cata de inscrever fora de si uma outra realidade. Eis o que motiva o surgimento  da arte enquanto fenômeno de cultura, da mesma forma o que impulsiona  aos que, parece, sentem necessidade de cumprir determinada ordem vinda  das regiões mais profundas do seu íntimo. 

Esse conceito de Função Metalinguística empregaremos para analisar em  uma perspectiva ensaística a obra de um pintor originalmente relacionada  com o desenho, visto ter colaborado durante muito tempo como cartunista  do jornal Gazeta do Oeste, tendo despertado para a pintura em 1988. Aqui já  expusera seu talento em um desenho firme e detentor de uma dicção  extremante criativa. 

Separaremos, para fins didáticos, sua obra em três arranjos. As naturezas mortas, as paisagens e as marinhas. 

Suas naturezas-mortas detém características bem particulares, começando  por manusear uma rica paleta de cores e seus respectivos tons. Expressa o  pleno domínio da luz que esplende sobre arranjos de flores ou frutas isoladas,  em um preciso sombreamento. A luz nessas telas assoma sempre de um ponto, maneira arguta e sensível de fazer com que o objeto em cena quedado proeminente, resplandecendo a luz que ilumina a composição retratada por  meio da técnica expressionista: consistentes pinceladas que mais parecem ter  sido feitas de chofre, como se não houvera previamente o desenho. Evoca  uma espécie de pressa, no melhor sentido que possa haver. As grossas  pinceladas sugerem mais um artista pleno no domínio de seus meios. 

Tenho para mim, que os vasos de flores talvez sejam o que de melhor  conseguiu fazer valer sua estética, em uma maestria capaz de lograr êxito a  partir da sua experiência com as telas e os pincéis, demonstrando suas  capacidades de imprimir uma hegemonia da cor sobre o desenho, em um  despotismo de formas, cores e contornos capazes de desmistificar o retratado  como lugar agradável e puramente decorativo. 

O Expressionismo enquanto estilo histórico ou escola vinculada às  vanguardas que surgiram no início do século XX, caracteriza-se por buscar  a transmissão de emoções por meio de uma técnica muito parecida com uma  forma abrupta de transmitir para a tela o real e seu entorno. Isso mesmo, uma  espécie de pressa ao colocar em grossas camadas ou pinceladas, com  espátula ou pincel, o que se apresenta ao olhar ou se movimenta no entorno  do artista. Desse modo, alguns procedimentos empregados desde sempre são  esquecidos. Basta ver como os vasos com flores estão muito mais do lado de  insculpir emoções do que imprimir na composição um equilíbrio de formas  ou procedimentos desde sempre buscados por escolas de pinturas do  passado. 

Por isso, fomos buscar adjutórios, para efeito de compreensão, nas funções  da linguagem. Essas telas referendam uma arte que se dobra sobre si mesma,  como se quisesse testar o código. Assim sendo, podemos inscrevê-la como  uma arte metalinguística, na medida em que não busca retratar aspectos  tendo em vista uma cópia da realidade, como por exemplo, a estética  Realista, Romântica ou Acadêmica. Ao dobrar-se sobre si mesma, acaba por  revelar o caráter de que estamos diante de um objeto no qual outorga um  discurso de que não passa de uma composição, cuja organização cromática  chama atenção para as possibilidades de se plasmar algo que pode até  remeter a um referente do real, mas não se quer uma cópia deste. 

As paisagens propostas por Laércio Eugênio também remetem ao que acima  discorremos, no sentido de buscar a luz, sendo que aqui procura captar a  luminosidade natural, quer seja nas praias, quer seja em ermas zonas,  parecendo muito mais fruto da imaginação do que factíveis de existirem.  Reforçando a ideia de recortes do real muito mais como desculpas para se elaborar o luzir claro de um possível sol e uma possibilidade de encetar  contrastes entre cores e nuances que se opõem, como o azul, a terracota e o  verde.  

Com efeito, encontramos nas telas amplos céus azuis, conformados por meio  de espessas pinceladas em diversos tons dessa cor. A perspectiva é  conseguida quase sempre através de alguma nuance, não do desenho, que  desaparece, para dar espaço e vida às cores que entram na composição.  Sugere precisão e uma falsa urgência, pois sabemos que essa espécie de  técnica requer tempo, silêncio e um olhar atento, distanciando-se, vez em  quando, para saber a exata medida do que se está elaborando. 

Fica difícil não chamar atenção para a luz, com sua clara transparência, assim  como se passasse direto, vinda do firmamento, não recebendo nenhum  obstáculo. O artista consegue com destreza alcançar, com imensa  propriedade, esse privilégio das zonas rurais ou de algumas cidades  nordestinas. 

Por fim, vejamos o virtuosismo do artista em dos seus temas principais, as  marinhas. São detentoras de imensa beleza cromática, fazendo valer o que  ousou e usou nas paisagens. Nada devendo a ninguém. Limita-se a engendrar suas telas, como pessoa um indivíduo discreto e sem nenhum vestígio de  soberba, apenas transforma em paisagens marítimas as ordens que emanando  seu interior. Esse mando e necessidade que forças da natureza demandam  transformar em “energia” uma “dínames” (Aristóteles). Assim como se fosse uma imanência, algo que chafurda dentro de si,  ansiando por se tornar Arte. E com o pintor Laércio Eugênio, encontramos  esse A no melhor sentido, de benfazejos objetos incorporados aos que o  cotidiano já detém, sendo que na Arte, e sobretudo nas marinhas, há uma  nova forma de contemplar a realidade, na medida que há um diferencial, pois  refrata o que formos acostumados a ver ou o que nos dizem como ver. Aqui  há um novo projeto de vida: transmitir sentimentos por meio de uma  determinada maneira, ou seja, de como se assenta a realidade no interior do artista. E assim ele transmite, por meio da sua pintura, as emoções que  rebentam em seus músculos, ossos sangue, estrumando os cães adormecidos  na sua alma, fazendo com que se transformem em uma outra realidade  possível.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Especial: Padre Antônio: caridade pastoral e entrega ao amor

Por Márcio de Lima Dantas 

                          "Boni de sui difusi" 

                     Santo Agostinho 



Como discorrer acerca de uma pessoa que não tive convívio ou acesso a  fontes primárias sobre seu comportamento e sua estada no mundo? Onde  resido é muito distante de onde ele atuou como sacerdote militante,  cumprindo o carisma da sua ordem, esse bem advindo do sagrado, voltando se para a comunidade: os padres da Sagrada Família, desde sempre  responsáveis pelo Santuário de Na. Sra. dos Impossíveis, localizado em um  contraforte da Serra de Patu. Por vezes, reverbera no meu íntimo frases  melódicas de um hino, assim dizendo: Vai trabalhar pelo mundo afora / Eu  estarei até o fim contigo. / Está na hora o Senhor me chamou / Senhor aqui  estou.  Encontrando-me assim, tal como no primeiro terceto da Divina Comédia, de  Dante Alighieri (Tradução de Cristiano Martins, Belo Horizonte: Itatiaia). 

                   No meio do caminho desta vida 

                         achei-me a errar por uma selva escura, 

                        longe da boa via, então perdida.

Como não sabia, dirigi-me a quem poderia saber. Achei por bem recorrer ao  amigo e benfeitor da cultura o Prof. Aluísio Dutra, que, por sua vez, indicou me o poeta José Bezerra (Antônio Martins, 1948), pois este conviveu na  Capela de Santa Teresinha com o Pe. Antônio e suas obras filantrópicas. Pe. Antônio Shulte-Wrede era responsável pelas atividades missionárias e  pastorais do Santuário do Lima e da Matriz de Na. Sra. das Dores. Desde  sempre já o conheci idoso, com uma longa barba branca, vestindo o hábito  do cotidiano dos sacerdotes da sua Ordem. Era uma batina firme no corpo,  que se destacava pela cor de um bege mais fechado. Ao que parece, era uma  espécie de indumentária usada no dia a dia, diferente da maior parte dos  clérigos, que é preta. Sim, já usava uma bengala para se apoiar. Por  coincidência ou uma benfazeja sincronicidade, estava eu passeando na ala  circular da igreja do Santuário. De repente, Pe. Antônio pegou no meu braço e me pediu para conduzi-lo até  a última casa que ficava debaixo da pousada. Alegou que chegara um seu  amigo, precisava acolhê-lo e dar assistência. Interessante que pegou uma  pessoa aleatoriamente; no caso, eu, uma espécie de compreensão do humano  como se todos fossem previamente bons, incapazes de negar uma pequena  ajuda. Não teve mais nada, foi só isso. De outra feita, ele se encontrava na pequena sacristia, local onde estavam os  objetos necessários à liturgia, das duas igrejas: uma no nível do rez-do-chão,  a outra no andar de cima. Havia um senhor, com sua esposa e duas filhas.  Este tinha trazido um presente para Na. Sra. Dos Impossíveis: uma rede.  Fiquei parado e observando. Esse homem disse alguma coisa, Pe. Antônio  recebeu com enorme gratidão a rede nova. Provavelmente, esse senhor, vindo do Ceará, dera o que detinha de maior valor. Foi assim que aconteceu.  Juro que é verdade. O clérigo não fazia distinção entre os romeiros,  amparando, conversando e prestando assistência. Aos domingos descia a serra e celebrava missa na Capela de Santa Teresinha.  Quando terminava, distribuía confeitos e biscoitos para as crianças. Todos  faziam uma grande festa. A comunidade ao redor da capela sempre foi  imensamente grata a esse sacerdote condutor não apenas de uma mensagem  espiritual, de evangelizador cuja missão era cumprir votos de dedicação para  com o seu semelhante, também apascentar seu rebanho, mas ajudava no que  podia às pessoas. Recorrendo a demandas enviadas a sua família e amigos  da Alemanha, reconstruiu a pequena capela, ampliando o tamanho para que houvesse maior conforto. Todas as quinzenas entregava às famílias  necessitadas cestas básicas.

O pastor conduzia como se fosse natural, como  se houvera nascido desde sempre com essas ordens atávicas, os símbolos do  mangual e do cajado. Não ficava só nisso. Procedia adjutórios aos que precisassem, retelhamento  de casas; pequenas melhorias, tais como tetos, portas e janelas, sobretudo  após as chuvas. Caso os moradores nada tivessem, pagava a mão de obra.  Após a celebração da missa no Santuário, descia para a cidade com o intuito  de prestar assistência aos enfermos. Bastante cansado retornava por volta das  10h, sempre a pé, recusando eventuais transportes. Acabou por sofrer uma  queda que o levou a ser cadeirante. A partir dessa condição, não ouve mais  mudança, mas ninguém pense que Pe. Antônio abandonou o seu ministério, os serviços dedicados, a missão que parecia habitar seu ser, mesmo sabendo  que não tinha mais tanto tempo. Pouco tempo depois veio a falecer no hospital da cidade, tendo sido velado  na Igreja Matriz, a população se fez presente, com muita gente se  despedindo, sobretudo os que residiam no entorno da Capela de Santa  Teresinha, pois fora lá que prestou muitos serviços ao menos favorecidos.  Foi sepultado no outro dia no Santuário do Lima, ao lado do túmulo de Pe.  Henrique Spitz. Seus restos mortais foram trasladados para Juazeiro do Norte  (CE). Tem uma coisa muito interessante e curiosa sobre esse sacerdote. Ele residia  no que chamavam de Casa dos Padres. Durante o reitorado de Pe. Henrique,  os padres tinham um apelido para ele: Santo Antônio. Não passava de uma  brincadeira elogiosa. Quando se ausentava, os padres diziam: Santo Antônio  está para chegar. Isso mesmo, temos que proclamar sua memória como dádiva de um homem  dedicado a fazer o bem, por meio de um serviço permanente de fé, esperança  e caridade. 

*Agradeço imensamente ao poeta José Bezerra, residente na cidade há 40  anos, poeta e ocupante da cadeira número 2 da Academia Patuense de Letras  e Artes. Sem seus preciosos informes, esse texto não teria sido possível.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Especial: Café Santa Clara e Casa Paris.

Por Márcio de Lima Dantas

Professor de Literatura Portuguesa da UFRN


 “Só agravava o prato que comia”

Adágio popular.



Na rua Capitão José Severino, bem próximo a um logradouro no qual estavam estacionados carros de praça, que serviam de aluguel, tais como Rurais ou Jeeps, do lado esquerdo, havia um reputado café, espécie de restaurante e bar, conhecido pelas deliciosas iguarias expostas aos clientes. Era o Café Santa Clara, pertencente à senhora Severina Dias da Silva (30.07.1910 – 27.10.1986). Vendia-se bolos, doces, queijos, chocolates de diversos tipos, pudins, bolinhas de carne, linguiça, buchada, conservas, enlatados. Havia uma clientela cativa, aumentada nos sábados, nos quais ocorria a concorrida feira semanal.

Severina de Cunegundes era uma senhora baixa, um pouco corpulenta, vestia-se sempre com roupas discretas. Além de ser responsável pela coordenação da feitura das comidas oferecidas para a venda, também estava em pé, atrás do balcão, atendendo a freguesia. Cordata, todos a respeitavam. Era impossível vê-la sem estar envolvida em alguma espécie de atividade, seja do café, seja da casa de morada, extensão nos fundos, dando ir até a outra rua defronte da igreja matriz, no qual havia uma bela fachada, com uma pequena área coberta por uma linda trepadeira, perfumada durante à noite, e uma grade de ferro. Quase ninguém detinha essa planta em seu jardim.

Botando sentido no que foi a vida de Severina de Cunegundes, é próprio dizer de uma estreita relação com o trabalho. Pusera a razão da sua existência em uma rotina cujo labor ocupava quase o tempo inteiro. Não se sabe se tivera o que se chama vida social, das pessoas “mais ou menos”, nos clubes da cidade, nos bailes de carnaval, nas associações que congregavam senhoras católicas, como o Apostolado da Oração, ou qualquer outra aglomeração de diversão ou festa cívica.

Na verdade, sua vida parecia restrita à casa, espécie de clausura que voluntariamente construíra. Sintomaticamente a casa estava encostada as duas outras vizinhas, sem beco ou oitão permitindo abrir um espaço. Pouco se via o movimento da casa se olhássemos para a frente que dava para a ampla praça da Igreja Matriz. Essa mulher desde sempre lançara âncoras que a conduzia a um cotidiano eivado de horas nos quais o relógio clamava seus mecanismos, lembrando dos compromissos, escandindo o cotidiano por meio de um ritmo intitulado trabalho. Isso mesmo, o café ocupava seu corpo e sua cabeça, não havia mais espaço para nada, a não ser uma redobrada atenção com os agregados da casa: Tião, Chico, Maura e Raimunda. Um ou outro podia ter laços de sangue, contudo, a maioria foi se achegando, despertando relações de afeto, demandando cuidados, incorporados à casa, em um movimento inconsciente de organizar uma família, pensando muito mais em si, nesse cultivo amoroso, do que nos outros.

O certo é que se torna difícil separar uma coisa da outra. Ao haver uma doação e um cuidado para com o outro também procedemos a uma medida de nossa capacidade de amar e sermos amados. Cada um dos quatro acima aludidos, comportava uma quota de responsabilidade, de acordo com as sessões do café, podia ser levar os mandados ou a compra de algum insumo, como Tião; também podia ser a feitura de comidas, como é o caso de Raimunda ou Maura. Ninguém havera de se dar ao luxo de nada fazer. Quando o dia chegava, todos implicitamente já sabiam o que lhes competiam elaborar, a quantidade e a qualidade.

Assim sendo, o exercício diuturno do trabalho era entendido como uma maneira não apenas de preencher o tempo com um minério edificante, mas muito mais como uma compreensão das horas dedicadas às atividades requeridas pelo café, conduzindo a uma explicação do estar no mundo, por meio de ganhar a vida através do suor, elevando o trabalho a um patamar mais alto, imprimindo respeito e dignidade, nada devendo a ninguém, dando-se o luxo de não ter resposta para dar a ninguém. Apenas elaborar uma funcionalidade que, por sua vez, engrandecia e deixava a alma plena de uma virtude eleita como a condimentadora da vida com especiarias capazes de dar bom sabor a tudo que fazia de boa vontade.

Agora vamos nos deter sobre o proprietário da Casa Paris, o mais sortido armarinho de miudezas, não só da cidade, massa de toda a região ao derredor. Era o Sr. Cunegundes Hemetério da Silva (03.03.1902 – 12.04.1981), ajudado por Chico. Aos sábados, como o movimento era maior, quase sempre tinha uma mocinha que ajudava a atender a clientela. Ficava difícil dizer quem era o mais calado dos dois, se o Sr. Cunegundes ou seu filho adotivo Francisco Dantas de Rezende (18.05.1938 – 02.12.2008).

O armarinho fazia jus à sua fama, com uma variedade enorme de materiais dedicados ao ataviamento de roupas sociais, de banho ou de cozinha. Podíamos encontrar gripi de todas as cores, sianinhas, fitas de toda largura, bicos, enfim, tudo que dissesse respeito aos arremates finais de uma costureira sobre uma roupa, concedendo uma dimensão estética a vestimenta.

A vida desse senhor limitava-se a administrar o seu negócio. Sabendo o caminho da loja até o café, onde era sua casa. Andava sempre lentamente, como se contasse os passos de uma vereda desde muito conhecida, pouco ou nada lhe interessava dos transeuntes, se iam ou se vinham. O importante era encerrar o dia cansado, com seu dever cumprido. Malgrado o cansaço de músculos e ossos, provava da brisa do entardecer, como se ela aportasse no seu frescor a aprovação desse bem estar com os outros, com sua família, mas, antes de tudo, consigo próprio, que é o que mais interessa e o mais importante, diante da vida e de sua obrigatoriedade de não cairmos em um vazio existencial. Por isso, o sensato e o saudável que é trabalhar, ocupando a cabeça com amanho de uma ocupação digna e edificante.

Com efeito, desenvolve-se uma boa maneira no amanho de dias sempre iguais. Isso interessa pouco aos que compreendem a vida como amar e trabalhar. Assim adquire-se uma lídima autonomia perante seus semelhantes, que podem até mangar, mas nunca capazes de dizer que o outro incorre em erros e práticas contra quem quer que seja. Não dá nada a ninguém, mas também não quer nada de ninguém. De maneira sutil e silenciosa lança o outro contra a parede; encostado, serve de exemplo a quem ousar chegar perto com suas piadas, ironias e deboches, tão caros a parte da população.

O Sr. Cunegundes não era afeito a polêmicas que a nada conduzem. Com sua forma de vida, plena de discrição e silêncio asseverava a quem interessasse estar com ele ou contra ele, parecia dizer sem falar: “Com licença, mas eu vou passar”.

Por fim, não tenho muito mais a dizer. Gostaria de falar dos agregados que se fizeram família, Raimunda Dias de Barros (05.06.1954), chegou com seis anos, era sobrinha de Da. Severina. Os outros três não eram parentes de sangue: Maura chegou com nove anos, Chico chegou com cinco anos.

Parece que sua boca, ao nascer, recebera um lacre possível de emitir tão somente discursos eletivos, configurando uma natureza comportamental que o conduzisse a uma liberdade interior, sem o compromisso ou a responsabilidade de ser refém do que pronunciara.

Chico, ocluso em uma aura de silêncio, mesmo em rodas neutras de homens pertencentes ao senso comum, já não sabia se nascera assim ou o exercício do lacre na língua advinha de uma sujeição ao contínuo exercício desde criança, em uma mescla de timidez e indiferença ao que acontecia no seu entorno.

E se era de encontrá-lo onde quer que fosse? Estava sempre com o aspecto asseado, discretas roupas limpas, sapatos pretos envernizados. Encostava-se nas paredes, ao se juntar a outros homens matando o tempo. Encerrado em si mesmo, restava a dúvida se estava prestando atenção às conversas ou seu espírito vagava em algum lugar no ermo da caatinga da região.

O mundo para Chico de Cunegundes estava restrito a um segmento de rua entre o armarinho e o café. O diâmetro de espaço no qual circulava era exíguo. Parecia se sentir seguro em lugares com pleno domínio e visibilidade do que ali sucedia, sendo possível haver uma previsibilidade no comportamento dos grupos de homens passando as horas nas calçadas, nas horas menos tépidas da tarde. Talvez fosse pouco afeito às pessoas desconhecidas, evitando surpresas que não estivessem consoante suas demandas interiores.

Raimunda, sobrinha de Da. Severina, viera de um sítio para estudar na cidade, bem como ajudar a Tia na casa e no café. Tinha apenas seis anos: uma mocinha destemida e trabalhadeira. Logo quando chegava da escola, dirigia-se à tia, para saber o que estava pendente e quais eram suas obrigações do dia. Estava sempre de prontidão, nada recusando fazer, afinal já era uma mocinha. Formou-se e aposentou-se como professora.

Havia uma outra pessoa que também era agregado, Tião, da família Rodrigues, responsável por efetuar os mandados. Ao que parece, a Sra. Severina atraia pessoas de boa índole e com capacidade de trabalhar, compreendendo que é por meio da labuta diária que se edifica, sobre a rocha, a morada da vida.




Antônio Silvino no Rio Grande do Norte.

Autor: Raimundo Soares de Brito - Raibrito. Membro da SBEC.

Antônio Silvino
Grafite (18/08/1993) de Guilherme Augusto - funcionário da Petrobras, baseado em foto do cangaceiro, publicada no livro “Antônio Silvino: O Rifle de Ouro”, de Severino Barbosa (Arquivo SBEC)


Dizem que o Dr. Raul Fernandes, depois do sucesso alcançado com o lançamento de “A Marcha de Lampião”, partiu para uma outra caminhada no roteiro do cangaço: organizar um outro livro, baseado nas incursões de Antônio Silvino e seu bando, no nosso Estado, e assim o fez com o título de “Antônio Silvino no Rio Grande do Norte”.

Conforme se sabe, três chefes de bando armado, deixaram os seus nomes inscritos no livro do cangaço, e na mente das populações sertanejas, de maneira indelével, nesta região: Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino e o mais famoso de todos – Lampião.

Cada um, porém, com a sua história, contada ou escrita com as características próprias e diversificadas, na maneira de agir, ditadas pelo estado temperamental de cada um e pelas condições ecológicas do meio ambiente, na época em que viveram e atuaram.sim faço: dessado.

Jesuíno Brilhante, cronologicamente o primeiro, na nossa região, não foi um celerado qualquer, salteador e sangüinário como tantos. Não. Tinha os seus homens, o seu grupo, é certo; muito mais para se defender da polícia e dos seus numerosos inimigos, do que para a prática do assalto criminoso à propriedade alheia. Não roubava. Sensível ao sofrimento dos humildes, dos injustiçados e desprotegidos da própria sorte, se fez deles protetor. Dizem que assaltou comboios do governo em época de seca, distribuindo os gêneros com os flagelados. A sua história se acha contada pelo escritor conterrâneo Raimundo Nonato em “Jesuíno Brilhante – O Cangaceiro Romântico”.

Antônio Silvino – de quem nos ocuparemos demoradamente neste comentário, em alguns aspectos – e sem que pese a prática de alguns assaltos – tinha lá as suas maneiras de agir, muito semelhantes às de Jesuíno Brilhante. De modo geral, também não assaltava. Mandava um recado, ou, pacificamente se apresentava ele próprio ao chefe da localidade ou ao fazendeiro abastado, a quem fazia o seu pedido, dizia das suas necessidades e das suas pretensões. Uma vez atendido, desaparecia, sem a ninguém molestar.

“Antônio Silvino, pernambucano, usou o rifle dezoito anos. Atravessou o Rio Grande do Norte, pacificamente” – diz o Dr. Raul Fernandes no livro que escreveu sobre Lampião. Este, ao contrário dos dois, foi a expressão máxima do cangaceiro nordestino. Implantou o terror. Foi em síntese, o crime personificado, matando pelo prazer de matar; roubando, pelo prazer de roubar.

No ano de 1901, Antônio Silvino acossado pela polícia paraibana, penetrou no Rio Grande do Norte. Foi exatamente quando se deu o chamado “Fogo da Pedreira”, na fazenda desse nome, pertencente ao Cel. Janúncio Salustiano da Nóbrega, do município de Caicó. Olavo Medeiros Filho residente em Natal, sabe como tudo aconteceu.

Ainda em 1901, há notícia de que esteve em São João do Sabugí. Dizem que, com a sua chegada, com exceção da casa do Sr. Manoel Amâncio, todas as outras da pequena povoação, foram fechadas. Na casa de Amâncio, Silvino foi pacífica e amistosamente recebido. Uma coleta de duzentos mil réis feita pelo seu hospedeiro entre as pessoas mais abastadas da terra, foi o suficiente para que o bandoleiro abandonasse a localidade “internando-se ainda mais neste Estado” – dizia o noticiário da época.

No ano de 1912, esteve em Jucurutu e Augusto Severo, atual Campo Grande. Muito embora Mossoró não tivesse no seu roteiro de visitas, os seus habitantes ficaram em polvorosa: “Uma notícia alarmante correu célere pela cidade nos dias agitados de maio de 1912. Teria sido visto no Alto da Conceição um presumível comparsa de Antônio Silvino” – é o que nos conta Lauro da Escóssia no seu livro de memórias, dizendo mais que “o comércio fechou as portas, o povo se aglomerou, enquanto as autoridades de imediato tomaram as providências cabíveis organizando a defesa da cidade. Mais tarde, tudo estaria esclarecido: Um comerciante da praça reconhecera no suposto ‘perigoso cangaceiro’, um seu freguês, também comerciante em Alexandria, que, quase pagava com a vida as canseiras da viagem” – conclui Lauro.

Vem dessa época, o fato que motivou esse relato.

Na sua visita a Augusto Severo – por sinal bem sucedida – Antônio Silvino deixou um recado para o povo de Caraúbas, dizendo que em breve iria até ali, com o mesmo propósito. O recado foi transmitido pelo Padre Pinto, então vigário de Augusto Severo, ao Bel. Alfredo Celso de Oliveira Fagundes, que ali se encontrava em trânsito.

O Dr. Alfredo, recém-investido no cargo de Juiz Distrital de Caraúbas, cioso dos seus deveres de guardião da lei, não viu com bons olhos a descabida e pretensiosa atitude do bandoleiro e ao chegar a sua terra, onde também já havia chegado o “ultimatum” de Silvino, encontrou o chefe local e demais autoridades sobressaltados e desalentados ante a perspectiva da indesejável visita.

Foi quando o juiz tomou a arrojada decisão: assumiu a responsabilidade da defesa do lugar e mandou dizer ao bandoleiro que, “podia vir, mas que seria recebido à bala” – aquela mesma resposta que Rodolfo Fernandes daria mais tarde a Lampião.

É claro que Antônio Silvino não gostou da resposta e mandou-lhe o troco com esta terrível ameaça:

“Pois diga a esse dotôzinho, que breve irei lá. Vô rasgá a sua carta de dotô, queimar a sua casa, esquartejá-lo e depois dinpindurá os seus restos nos postes dos lampiões da luz...”.

Imediatamente a população foi mobilizada. Alberto Maranhão no Governo do Estado, cientificado, mandou “um cunhete de balas (1.000 cartuchos)”. As lideranças locais e fazendeiros convocados atenderam ao chamamento do juiz e de repente 40 rifles estavam a sua disposição. Vários dias a então vila de Caraúbas esteve em pé de guerra na expectativa do ataque iminente, mas Antônio Silvino não apareceu para “rasgá a carta do dotô...”.

De tudo ficou o fato e a foto documentando para a História um acontecimento, fruto de uma época de atraso que já se vai encobrindo na curva do tempo.



Grupo de defensores de Caraúbas ao ataque de Antônio Silvino:

Francisco de Souza, Nilo de Góis, Francisco Amâncio, Elizeu Noronha, Francisco Brasilino, João Cisneiros de Góis, Firmino Gurgel, Osório Pinto, Abel Fernandes, Pedro Oliveira, Manoel Rosa, Mariano Soares, João Neiva, Samuel Mário, Nestor Fernandes, Vital Fernandes, Bento Sobrinho, Bertoldo Soares, Josué de Oliveira, Valério de Freitas, João Câmara, Manoel Darico, Elísio Fernandes, Pedro Fernandes, Joaquim Amâncio, Deodoro Gurgel, Lino Ademar, Manoel Teopompo Fernandes, Jacob Gurgel, Luiz de Oliveira, Joaquim Gurgel, Nestor de Oliveira, Dr. Alfredo Celso, Cícero Fernandes, Raimundo Costa, Manoel Arruda, José Dantas e Matias Fernandes.