Por Márcio de Lima Dantas.
As folhas do calendário são leves.
Desprende-as o vento, surge uma data.
Henriqueta Lisboa
Ricardo Câncio nasceu em Mossoró (13.03.1958 – 28.08.1993), era funcionário do Tribunal de Justiça, residiu em Natal durante muito tempo, tendo retornado à terra onde nasceu, formando-se em Direito pela UERN. Produziu muito pouco, mas o suficiente para se inscrever como artista visual na sua cidade. Também deixou inéditos muitos cadernos de poesias. Nada publicou. De uma personalidade introspectiva, era reservado e discreto em tudo. Apreciava muito a casa da família em Tibau. De lá, ao que parece, veio a inspiração de pintar três belas marinas. Do que restou, há somente dois desenhos. Esboços, como se tivesse exercitando ou buscando um traço que poderia ser o seu ou não. Esse traço, tateando áreas relacionadas às coisas do espírito, o que chamamos arte ou outras atividades abstratas desvinculadas do tangível a que convencionaram realidade. Talvez ensaiasse um diferencial de outros colegas de convivência e pintores, como Varela, por exemplo. Esses dois desenhos foram esboçados de maneira incomum, não como a predominância do que sucede a um artista matar o tempo com uma procura que lhe diga respeito ou não. Sabe o que não quer, descarta, tenta outro traço, e assim por diante. São espécies de ensaios querendo comprovar para si mesmo o domínio de um desenho nem sempre fácil que é o de retratar pessoas. O autor preferiu um riscado que parece ter sido feito com uma rapidez, nas suas linhas retas e ângulos perpendiculares, encontrados em todos os três personagens masculinos. A bem da verdade, sem se demorar muito, esses poucos esboços só vêm ao encontro do que podemos confirmar em Ricardo Câncio. O segundo desenho representa um estranho homem, a saber, um enigmático retrato de um personagem com chapéu de couro de vaqueiro do Nordeste e um esquisito par óculos que esconde os olhos. Restando a boca em um sorriso contido. Os signos chapéu de couro e óculos escondendo os olhos são normalmente antípodas, resta deter questões acerca da índole desse personagem ímpar.
Ainda como parte dos desenhos deixados pelo artista, temos quatro croquis de excelente feitura. São três residências privadas e um prédio público. Podemos ver o bom gosto e a valorização de uma espécie de estilo hoje praticamente em extinção. De feição neoclássica, com sua rigorosa simetria bilateral, erguiam-se na paisagem urbana de Mossoró. Ao que parece, Ricardo Câncio sugere reter essas fachadas de beleza ímpar, com suas entradas pelo lado, permitindo a frente da casa dispor sua beleza com janelas rasgadas de duas maneiras: ou se abriam apenas em um nível acima da calçada ou ocupavam cerca de dois terços da linha onde iniciavam os elementos decorativos. Algumas janelas recebiam contornos, outras estavam ornadas de elegantes balcões, permitindo serem abertas para a rua ou também, diante do clima quente da cidade, abrirem para receber eventuais ventos frescos, sobretudo à noite, que, como se sabe, sopram os ventos marinhos emanados de Areia Branca. As platibandas eram as partes nas quais os elementos decorativos, com suas sinuosas linhas curvas, imprimiam aos adornos um requinte aristocrático, encontrando-se o manuseio das formas orgânicas (plantas, flores), lembrando um pouco o Art Nouveau. Via de regra, não se caracterizavam por serem grandes herdades, mas parece que os arquitetos se contentavam com o efeito de totalidade, emergindo um conjunto com grande individualidade; difícil era encontrar casas feitas em série. Por fim, existe um croqui da Cadeia Velha (hoje funciona o Museu Lauro da Escócia), cheia de histórias da municipalidade. Sua imponência e a grandeza de dois pisos, fazem-na, ainda hoje em dia, um lugar magnífico para se contemplar. Os adornos são muito poucos, pois foi erguida para ser algo exclusivamente funcional, diferente das outras três fachadas no qual havia o interesse, talvez, de ostentar uma distinção que só os das classes dominantes detinham, fazendo-se diferente.
Vejamos as três marinas, duas folhas com esboços, uma com três transeuntes e outra com uma figura enigmática, com chapéu de vaqueiro e óculos que veda ao espectador seu olhar. Vamos por partes. Em uma folha de papel estão representados homens caminhando, dois vistos de frente, um outro de costas. O primeiro da esquerda, visivelmente, com um saco pendurado às costas, não nega ser um homem pertencente às classes populares, o segundo, com seu talhado paletó, provavelmente pertence às classes dominantes, o terceiro é um militar. Ricardo Câncio pintou muito pouco durante sua breve vida? Depende, desde quando quantidade em arte circunscreve mérito ou valor? Leonardo da Vinci não deixou tantas telas (cerca de 15 pinturas), mas o que se encontra no Museu do Louvre (A virgem dos rochedos, São João) ou Hermitage (Madona Littia, Salvator mundi) chancela-o como um dos grandes de toda a História da Arte Ocidental. Revolucionando, no Renascimento italiano, a técnica de retratação. Não somente pelo manuseio das formas ao definir uma figura, tais como o contraste entre sombra e luz, o inusitado do sfumato, as fisionomias enigmáticas, desafiando o espectador. Essas formas de retratar foram de encontro ao que, desde sempre, estava convencionado pela aristocracia e a realeza. Retornemos às marinhas. Das três, duas representam o ânimo do litoral habitado pelo homem, em modestas condições. Percebem-se os barcos ancorados, durante um crepúsculo vespertino, lembra um pouco a técnica impressionista, quando contemplamos uma organização de signos de uma tela vista a distância. Todavia há um barco dominando a cena, cujo desenho não nega deter os traços da representação acadêmica. Há uma outra marina ausente de humanos. Procura mostrar o cotidiano de pescadores, com a pequena casa lá distante, sob coqueiros e uma luminância de um sol pleno, na sua transparência de permitir as cores demonstrar seu brilho, resplendendo sobre a cerca de pedras, as duas jangadas ancoradas na areia, as redes de pesca quarando ao vento e o mar com suas ondas. Eis o resultado de uma soma engendrando um ambiente bucólico, talvez para apascentar um eventual bulício íntimo ou externo. A paisagem tranquiliza o que se move internamente sem o nosso controle. Parece ser o que proclama um locus amoenus, uma calmaria cujo antônimo é uma vida de atropelos, cheia de grandes atividades, gerando um estresse que, depois, vem a ser enfermidades. Tenho para mim que essa bucólica paisagem nos convida a se evadir um pouco das cidades, das redes sociais, com sua tirania de apresentar uma felicidade artificial, como se fosse de plástico. Nos diz que há outros meios de atingir sossego e saúde. Aqui tudo se encontra no seu lugar, a perspectiva muito colaborou para um cunho de plácida permanência, organizando os planos horizontais. Se não conhecemos in situ, podemos fruir o que a tela nos oferece: um repouso, uma evasão do que os budistas nominam Maya, o que se aproxima do real concreto e das cobranças que o “Ar do Tempo” bafeja no rosto e na alma. Porém, há os que nada invejam, tampouco se sentem na obrigação de usar determinadas roupas ou frequentar ambientes plenos das gentes que estão em sintonia com os que não sabem direito como se portar.O eminente artista visual Diniz Grilo, retratou com redobrado primor uma tela
com apenas uma figura central: Ricardo Câncio, com vinte e poucos anos. Há um outro
retrato de Alex Rosado, no mesmo estilo, como se quisesse ressaltar uma realeza que só pode ter com alguém que cultivamos com muito carinho, e se houver, quem sabe, o amor Philia (amizade). É o que não deixa esconder as duas telas, sobretudo a de Ricardo Câncio (a outra retrata Alex Rosado). Retratado com as vestimentas de um príncipe, alquebrado pelo seu olhar de pessoa tímida, intimista e introspectiva. Malgrado esse traço de personalidade, a timidez (é sempre complexa; Clarice Lispector se dizia tímida e ousada ao mesmo tempo), fronteiriça do intimismo, vivendo muito mais para dentro do que para fora, esse jovem não se furtou a cultivar boas amizades, principalmente no meio artístico. Prova disso é que do seu espólio ainda resta na residência da sua irmã Sra. Nicácia, três bons trabalhos do amigo Varela, é bem provável que tenha sido presente desse grande amigo.
O resto do espólio foi doado ao acervo da Sra. Isaura Amélia, inclusive seu excelso retrato no qual predomina a cor vermelha, imprimindo ao retrato uma beleza ímpar, pois todo o fundo, bem como o gorro e a indumentária, em um grande golpe de harmonia através do monocromatismo pictórico, apenas as listras verticais de um branco acetinado sobre o vermelho.A presença inapagável de um vermelho intenso, como se quisesse dar contorno e inquirir o eventual caráter do rapaz, busca um delineamento do rosto, ao proceder um contorno do que no final das contas, todo mundo sabe, que o semblante resulta do olhar e da boca. E nos mostra um jovem rapaz cujos olhos estão eivados de uma suave melancolia. É muito provável que nenhuma outra pintura tenha captado com imensa profundidade esse contorno dos olhos e da boca, a fisionomia com tão poucos recursos, ainda mais quando se ousou manusear tão-somente uma cor, nem sempre fácil de um uso na pintura. Ao se desenhar dessa maneira, Diniz Grilo mergulhava nas águas aparentemente paradas de uma personalidade. Muito provável que nenhuma tela desse pintor tenha captado com imensa profundidade o semblante do nosso personagem, descendo em águas mais profundas, longe de restar na medida do primeiro impulso do contado de adentrar pelas águas. Dessa maneira, faz-se revelar uma alma plena, ao que parece, de uma vida interna rica e povoada de signos que buscavam superfícies íntimas na qual se encontraria silhuetas de símbolos remetedores ao que detivesse quietude, sossego e caráter observador. Assim sendo, eis um homem cujos contornos diziam respeito a um substrato na qual poderia colocar em cima as nuances de um homem jamais distanciado de perto da introversão com suas estradas e aceiros do ensimesmamento. Porém, tal forma de se estar no mundo, o que chamam de comportamento, não impede que se tenha uma “vida normal”. Haja vista a totalidade de boas amizades conseguidas nos lugares em que residiu, um rapaz benquisto por familiares e outras gentes. Eu penso uma coisa desse jovem rapaz retratado como se fosse um príncipe, pelo gorro e pela elegância da roupa. Eu penso, ao me deter sobre os olhos quebrantados de melancolia, acrescido de uma boca sóbria que parece não acenar para nada, pois talvez não faça concessões em demasia à sociedade, com suas regras inventadas por quem se interessa em tirar proveito disso ou daquilo. Bem claro que ao lado da introversão, havia um homem observador, cuidando do que se movimentava a seu redor, contemplando, porém, preferia se resguardar em círculo de profundo silêncio, fazendo fronteira com uma espécie de timidez. Com efeito, houve quem dissesse do seu comportamento reservado, não era muito de conversa. Talvez seja aquele tipo e personalidade destituído de seguir o rebanho, sem refletir para onde conduz a estrada. Optara por um jeito de ser e estar, interiormente confortável. Por fim, há de exultar a presença no vergado arco das artes do Rio Grande do Norte de um pintor com alto quilate estético, como o é Diniz Grilo, provavelmente integrando um conjunto de amigos da arte e do afeto entre pessoas, das quais o pintor Ricardo Câncio integrava. Mesmo tendo produzido pouco, este deixou trabalhos confeccionados com três técnicas, capazes de atestar do que era capaz se houvesse se dedicado com maior intensidade e tempo da arte do desenho e da pintura. Fica difícil duvidar dessas capacidades habitantes do interior da sua alma.
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