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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Especial: João Natal: para nascer, nascemos.

 Por Márcio de Lima Dantas.

De sua formosura 

deixai-me que diga: 

é tão belo como um sim 

numa sala negativa. 

João Cabral de Melo Neto



João Natal (Natal, RN, 1960) consegue imprimir em suas obras algo que  parece carregar consigo uma espécie de princípio de nascimento permanente.  Não o nascimento compreendido apenas como origem, como instante  primeiro em que algo surge do nada, mas aquele movimento contínuo em  que as coisas, mesmo depois de existentes, conservam a possibilidade de  uma nova aparição. A matéria, nesse estado de permanente devir, nunca se  apresenta completamente encerrada em si mesma. Ela guarda uma espécie  de silêncio interior, uma potência adormecida que aguarda o gesto capaz de  revelá-la. É nesse território de passagem que se situa a produção de João Natal. Sua  obra parece nascer de uma escuta atenta daquilo que o mundo cotidiano  frequentemente deixa escapar. O papel que todos veem como simples  superfície pode conter a promessa do voo; a mala esquecida em algum canto  pode carregar uma memória ainda não revelada; o brinquedo, aparentemente  reduzido ao universo infantil, pode mostrar uma das mais antigas operações  humanas: transformar a realidade através da imaginação. João Natal não parece interessado em impor à matéria uma existência  completamente estranha à sua natureza. Existe em sua produção uma  negociação delicada entre aquilo que o objeto já é e aquilo que ele pode vir  a ser. A forma não nasce de uma violência contra o material, mas de uma  aproximação paciente, semelhante ao artesão que conhece as possibilidades  ocultas da madeira, do barro ou do tecido porque aprendeu primeiro a  observar suas resistências. Antes de transformar, é preciso escutar. 

As séries e subséries presentes em sua trajetória parecem justamente uma  espécie de experimentação contínua, uma investigação acerca dos limites e  das possibilidades dos materiais. Não são apenas conjuntos organizados de  trabalhos, mas caminhos de pesquisa através dos quais o artista procura  compreender até onde uma determinada matéria pode ser conduzida, o quanto pode dobrar-se, curvar-se, torcer-se, multiplicar-se em formas  diversas sem abandonar completamente a lembrança daquilo que era. As séries vêm de então demonstrar o quanto determinado material pode ser  dúctil, pode se tornear, perfazendo uma infinidade de jeitos, maneiras, formas, ajuntando às cores uma variedade pictórica que reverbera beleza na  dobradura da linha curva. Da linha que se organiza como arquétipo de um  eterno feminino, lançando essa metade para que se complemente com os  ângulos retos das figuras geométricas. Há nessa relação entre curva e geometria uma das chaves para compreender  sua poética. A linha curva parece guardar algo da própria natureza em  movimento. Ela aproxima-se do corpo, das formas orgânicas, dos caminhos  sinuosos das águas, das raízes que procuram espaço sob a terra, das conchas  que crescem lentamente em torno de seu próprio centro. A curva possui  memória de vida. Entretanto, ela não aparece isolada. Ao seu lado surgem os ângulos retos, as  estruturas geométricas, os limites organizadores do espaço. Não há uma  disputa entre essas forças, pois o artista parece buscar mostrar justamente que elas podem não ser contrárias e passam a estabelecer uma convivência  possível. Como se a natureza e a construção humana, o impulso e a ordem,  o acaso e a medida, encontrassem uma forma de diálogo. Assim sendo, eis a harmonia possível de riscos entrecortados para que, através dessa metáfora, ouse haver as bodas de partes que integram o nosso  entorno, o perímetro no qual habitamos em busca de um equilíbrio. Qual seja o que nos conforta, o que nos transmite conforto e sossego de espírito para  enfrentar as atribulações dos dias, as rasgadas páginas de um calendário  apressado, insistente em seu caminhar ligeiro nas calçadas que rasgam as  ruas da existência. 

Essa busca pelo equilíbrio talvez seja uma das questões mais profundas da  obra do artista. Não se trata daquele equilíbrio imóvel das coisas encerradas  e definitivas, mas de uma harmonia sempre ameaçada pelo movimento. A  vida permanece porque se ajusta continuamente, o corpo mantém-se de pé  porque realiza pequenos deslocamentos invisíveis, a embarcação permanece  sobre as águas porque aprende a conversar com a instabilidade das ondas. A arte de João Natal parece nascer dessa mesma compreensão. Nada  permanece completamente fixo. Tudo carrega uma possibilidade de  transformação. O brinquedo, nesse contexto, ocupa uma posição singular. Observado  superficialmente, poderia parecer apenas uma referência à infância, à  memória de um tempo perdido ou à recuperação de imagens afetivas. Mas  essa leitura reduziria o real significado de sua produção. O brinquedo, antes  de ser objeto infantil, é uma das primeiras formas humanas de criação. A criança que dobra uma folha de papel e transforma aquele fragmento  simples em um avião realiza uma operação semelhante àquela do artista, percebe uma possibilidade escondida na matéria. O papel continua sendo  papel, mas já não é somente papel. Ele passa a conter uma promessa, pois existe nele uma espécie de ausência presente: o voo que nunca aconteceu,  mas que se realiza no campo da imaginação. Talvez seja justamente esse instante que interesse a João Natal. O momento  anterior à cristalização das coisas. O instante em que o mundo ainda não foi  completamente endurecido pelas suas funções práticas e permanece aberto  ao espanto. O artista parece retornar constantemente a esse estado inaugural, quando os  objetos ainda conservam múltiplos destinos. Sua obra não fala apenas  daquilo que as coisas são, mas daquilo que elas poderiam ser. Essa operação aproxima sua produção de uma antiga sabedoria presente nas  culturas populares: a capacidade de criar a partir do que está disponível. A  inteligência inventiva que nasce não da abundância, mas da necessidade. A  transformação do simples em extraordinário. 

A cultura popular nordestina sempre carregou consigo essa capacidade de  reinvenção. O objeto cotidiano raramente permanece preso à sua função  inicial. A madeira torna-se brinquedo. O barro torna-se figura. O tecido  torna-se bandeira. O alimento torna-se celebração. O material comum torna se memória coletiva. É dentro dessa lógica que surge a obra Mateus Misterioso — Bordadinhos  para Cascudo. Trata-se de uma espécie de homenagem visual ao universo  preservado por Luís da Câmara Cascudo, não como simples ilustração de um  repertório folclórico, mas como reconhecimento de uma memória profunda  do povo brasileiro. O chapéu de couro, o bastão, o chocalho e a pequena cuia de barro não aparecem como objetos isolados, são fragmentos de uma civilização  sertaneja. O chapéu guarda a figura do vaqueiro, homem moldado pelo sol, pela distância e pela necessidade de dialogar com uma paisagem muitas  vezes áspera. O chocalho, mesmo silencioso na obra, parece conservar  dentro dele o som perdido do rebanho atravessando a caatinga. A instalação transforma esses elementos em vestígios. O Sertão não aparece  apenas como lugar geográfico, mas como território imaginário onde  sobrevivem gestos, crenças e formas de convivência. Os bastidores presentes nessa mesma pesquisa aproximam-se dos  estandartes das festas populares. A coroa, o boi, o tambor, os personagens  mascarados e os pequenos animais compõem uma espécie de teatro sagrado  e profano. O boi que morre e retorna, o ritmo do tambor que convoca a  comunidade, o Mateus que habita a fronteira entre o riso e a cerimônia: tudo  participa de uma memória coletiva que insiste em permanecer. O brinquedo ocupa lugar fundamental na poética de João Natal. Não como  nostalgia de uma infância perdida, mas como lembrança de um estado  original da imaginação. A criança que transforma um pedaço de papel em  avião realiza uma operação semelhante à do artista: descobre dentro da  matéria uma possibilidade escondida. A pipa, o pião, a ciranda, a amarelinha e os jogos de rua aparecem como  pequenas cosmologias. Antes de serem brincadeiras, são maneiras de  organizar o mundo. A criança desenha caminhos no chão e, por alguns  instantes, estabelece uma ordem própria dentro do caos da existência. João Natal parece compreender profundamente essa lógica. Por isso seus  elementos populares não aparecem como ornamentos regionais ou como  simples referências identitárias. Eles são tratados como formas de  pensamento. Cada objeto carrega uma maneira de compreender o mundo. O artista não parece perguntar apenas “o que é esse objeto?”, mas “que outras  existências estão escondidas dentro dele?”. 

É nesse ponto que surgem as malas utilizadas como suporte em algumas de  suas obras. A escolha desse objeto possui uma força simbólica particular, porque a mala já chega ao campo artístico carregada de uma história anterior.  Ela não é uma superfície neutra. Antes de receber a intervenção do artista, já tem uma narrativa impregnada a ela. A mala é um objeto de passagem. Ela pertence ao universo das partidas e dos  retornos, das distâncias percorridas e dos caminhos imaginados. Guarda roupas, documentos, pequenos vestígios de uma vida. É um recipiente de  ausências e expectativas. Quando João Natal transforma a mala em suporte, acontece uma mudança  de destino. Aquilo que antes transportava objetos passa a transportar  imagens. Aquilo que acompanhava deslocamentos físicos passa a carregar  deslocamentos simbólicos. Ela guarda não aquilo que levamos conosco pelo  mundo, mas aquilo que construímos para compreender o mundo. Essa operação revela uma característica essencial de sua obra: a  transformação nunca apaga completamente o passado da coisa transformada.  Pelo contrário, conserva suas marcas. A mala continua sendo mala. O papel  continua sendo papel. Mas todos esses elementos passam a habitar outra  condição. A arte acontece justamente nesse intervalo. Entre o que permanece  e o que muda. Entre aquilo que a coisa era e aquilo que ela pode nascer para  ser. Assim, podemos afirmar — sem temer o elogio fácil diante da beleza que  salta aos olhos das personagens, nos objetos e nas paisagens presentes na  obra de João Natal — que o artista é um exímio senhor dos elementos que  recebem essa sagração do fazer, de proporcionar, de dar vazão àquilo que  pulsa em seu espírito. Tudo parece nascer com naturalidade, como se a  matéria já trouxesse consigo a possibilidade da forma antes mesmo do processo de imaginar a obra.

Visivelmente podemos atestar um traço pleno  de domínio, mas também de liberdade. Um traço que não se limita a  representar o mundo, mas antes procura descobrir nele aquilo que permanece  oculto. Considerando como uma permanente compulsão no traço do artista, somos  conduzidos a buscar aquilo que essa recorrência quer dizer, aquilo que essa  metáfora cerca ao longo de toda sua obra. Estamos falando da linha curva e  da rarefeita linha reta. A linha curva aparece como uma espécie de  pensamento constante, uma presença que retorna sem jamais se repetir ou  cair na autoimitação. João Natal parece perseguir as inúmeras possibilidades  de contemplar a curva/o curvo, seja nos elementos do nosso entorno, seja nas  formas encontradas na própria natureza, como se cada nova aparição fosse  uma tentativa de revelar um segredo ainda não completamente alcançado. Essa invariante que atravessa sua produção, ora explícita, ora subliminar,  talvez busque ressaltar justamente o sentimento que habita as curvas. Não  apenas a forma em si, mas aquilo que ela desperta. É possível enxergar algo  das linhas opulentas das igrejas barrocas, dos movimentos sinuosos dos  ornamentos que parecem querer escapar da rigidez da pedra para alcançar a  emoção, o sentimento do espectador. A curva, nesse sentido, não é somente desenho, é uma maneira de convocar o sensível, de aproximar a matéria da  experiência interior. O doce popular alfenins surge como pretexto privilegiado para essa  deambulação pelos territórios onde a linha curva emerge com maior  intensidade.
A delicadeza da forma moldada no açúcar, sua aparência frágil  e ao mesmo tempo carregada de memória, permite ao artista aproximar-se  de uma tradição em que o fazer manual deixa de ser apenas uma escolha  estética e passar a revelar uma espécie de estado de espírito. 
Ressaltar a linha curva, portanto, perfaz um olhar que seja encontrar, no  exercício atento da contemplação, aquilo que pode emanar o sentimento  adormecido no interior do artista. João Natal parece compreender que as  formas não são silenciosas. Elas carregam histórias, afetos e lembranças. Sua  obra nasce desse encontro entre matéria e imaginação, entre aquilo que os  olhos reconhecem e aquilo que a sensibilidade pressente. Por fim, não esquecer que um ciclo pode ser compreendido como algo que  se fecha, como um projeto jaz terminado, como espécie de serpente que  engole o próprio rabo. Pode também ser algo alvissareiro, que findou, que  encerrou uma etapa e iniciou uma nova. Assim é a gramática da condição  humana, não fica ninguém impune. Valete Fratres.

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