Com a sabedoria se edifica a casa, e com a
inteligência ela se firma; e pelo
conhecimento se encherão as câmaras de
todas as substâncias preciosas e deleitáveis.
Provérbios, 24:3-4
Cleise Meiry (Campina Grande, 1962) teve um mestre, o professor Luís Henrique, da Escola Vanguardista de Arte (EVA), de São José dos Campos, SP. Nessa época, tinha a idade de trinta anos. Sempre gostou de pintura. Foi assim que surgiu o interesse em fazer um curso com esse professor. Aprendeu com ele pintura em tela, pastel e grafite. Nessa época, pintava em lençóis e travesseiros, sob encomenda, tanto o rosto de crianças quanto o de pessoas, em sua maioria do exterior, quando lhe requisitavam. Sempre ganhava as competições nos colégios. Enquanto os colegas pintavam ainda chapados, intuitivamente, já fazia uso da perspectiva. Casada com um militar, residia dentro do CTA. Foi aí que conheceu a professora Patrícia, pessoa de grande competência nas técnicas de pintura, que acabou por aprimorar o que era germe e o que já dominava. Logo começou a dar aulas de pintura para crianças; as mães gostavam muito desse interesse dos filhos pela arte de pintar em telas. Também ministrava aulas aos sábados, para aqueles que trabalhavam durante a semana. Fazia mais pinturas a óleo sobre telas, embora comercialmente tenha considerado mais difícil de vender. Passou, então, a fazer pinturas sobre tecido, embora fosse adepta da tinta a óleo. Fez curso de pastel, grafite e espatulado. Sua vida foi atípica: não houve um continuum, como sucede com a maioria das mulheres que casam e restam acomodadas. Também isso quase sempre sucede aos homens. Residiu em Natal, São José dos Campos, Belo Horizonte e São Paulo, para, enfim, fixar-se em Natal e, com grande perseverança, firmar-se no mercado de artefatos pintados em courvin, pintura em tecido e pintura em tela. Toda errância do ser humano, toda peregrinação pelas ladeiras da vida, toda inquietude emanada das entranhas, latejando onde pensou que encontrara guarida, acabando por concluir que não era aquele lugar que ansiava edificar sua definitiva morada, consequentemente, mudando de cidades e de ofícios. Esses desassossegos engendram uma sensibilidade maior, uma maior capacidade de discernimento e um contorno mais firme do que se é como pessoa e do que se resguarda de desejos. Se a pessoa for humilde de caráter, pode vir a ter um crescimento e uma autonomia subjetiva, tornando-se mais sensata e mais tolerante, detendo laivos de sabedoria e uma definitiva quietude, caso essa impaciência de se fixar em algum lugar não seja fruto de problemas afetivos. Foi o que eu vi ao meu redor.
Sucede uma coisa: o seu artesanato não é qualquer um. Tenta ao máximo individualizar cada trabalho, feito com esmero e dedicado interesse pelas peças que elabora. Quando está envolvida em algum trabalho sob encomenda ou mesmo preparando-se para conduzir suas peças a uma feira, esquece que é uma artista visual e mergulha com ânimo e vívido interesse no que está fazendo. Por isso, é admirada onde chega, recebendo elogios e causando estranhamento nas pessoas acostumadas com o que já é visto ou que não estão acostumadas com o fato de um jogo americano ser tão diferente, tão bonito, tão autoral. É o caso de Cleise Meiry. Se alguém duvidar do que estou afirmando, basta acessar seu Instagram (arte_que_faz_arte). Quase tudo o que faz é pintado sobre courvin (tecido sintético usado para revestir sofás, assemelha-se ao couro, bastante versátil, pode deter uma multiplicidade de cores, podendo ter o revestimento de algodão ou ser totalmente sintético). Com efeito, seu artesanato é bastante precioso no uso da cor e dos materiais. Mesmo se tratando de peças utilitárias ou conduzidas para um fim doméstico ou para a decoração da casa, a artista não perde de vista o caráter estético de transmitir e repassar seus conhecimentos em arte para peças que são funcionais. Seu material exposto à venda ou feito sob encomenda é muito elegante e sofisticado, reverberando incessantemente algo que não é comum.Podemos, ainda, adentrar suas pinturas a óleo. Comentaremos as telas a partir das temáticas. Primeiro, podemos falar das naturezas-mortas: flores e frutos sobre mesas. Esse conjunto filia-se a um retrato de natureza realista, embora as pinceladas neguem, na medida em que se aproximam do modo de pintar impressionista. Tanto estão em repouso sobre a mesa, com outros utensílios domésticos, como parecem se comprazer em retratar as rosas robustas e em cores amenas, solitárias ou emparelhadas.
Há também lindos girassóis em vasos. Sim, e outras flores com seus pendões verticalizados, pintadas em amarelo, erguendo-se não apenas com forte pendor ornamental mas também buscando tatear onde residem os domínios da estética, onde mora a beleza, onde se encontra a harmonia, onde se perfilam as simetrias bilaterais, proclamando o equilíbrio entre duas partes exatamente iguais.
Enfim, dando contornos a outra realidade na qual se pode propor um mundo diferente, novas formas de expressar o que lateja no íntimo, configura, por meio da arte e de suas adjacências, a tentativa de aceder ao novo, aos novos arranjos de flores. Estamos fazendo uso das flores como sinais, como signos, como no sentido figurativo, embrenhando-se por essas sendas pertencentes ao imaginário subjetivo, assim como ao imaginário coletivo. O que importa, no final das contas, é o resultado do trabalho. O que importa é como uma singularidade apetece engendrar essa outra realidade, para anexar a “dita de verdade”. Deve-se ter em conta que um produto, quando se firma como singular, como autoral, como resultado de uma forma de apreender o seu entorno, também está fazendo saber de uma assinatura do plural, do coletivo, quando se trata de arte de qualidade, como é o caso de Cleise Meiry.
Podemos nos ater às paisagens urbanas e às paisagens rurais. Acredito que é nelas que a artista demonstra sua capacidade de manusear diversas técnicas, resultado da aprendizagem com mestres em cidades diferentes. As paisagens expressam uma imobilidade, parecem vítimas do tempo, ao deixar tudo parado, imóvel, como a reter uma eventual história sucedida naquelas paragens. Tudo rescende à história, até a maneira de deixar o fulcro, o tema da tela, em um plano mais distante do espectador. Talvez esse efeito de imobilidade tenha sido causado pela técnica da espátula sobre tela. Ergue-se uma herdade ao fundo, um sobrado com muitas janelas, pleno de majestade, permitindo entrever o fato de encontrar-se repleto de história. Em outras telas, despontam modestas casas, com galinhas ciscando no terreiro. Não ocorre a presença do humano. Apenas existe o gotejar da areia das horas na ampulheta do tempo. Tudo é calmo e bucólico, evocando um lugar para onde se possa repousar um corpo cansado e uma mente vibrando pensamentos. Talvez esses lugares na zona rural sejam justamente o que os caminhos buscam, conduzindo para um locus onde possa, em definitivo, amansar uma alma inquieta. Quero dizer que esses lugares são metáforas; poderiam ser outros lugares, como à beira-mar que aparece em uma tela, contanto que o sopro do tempo limpasse o bafio que se sentia em alguns espaços. Por fim, há uma tela representando um caminho estreito no bosque, circundado por intenso verde de plantas, apenas o desenho rasteiro no solo. É um recorte, pois não há começo nem aponta para onde segue, para onde conduz, para um objetivo, se é que tem. Ou tão-somente reitera a obsessão primordial da pintora.Há uma presença constante na totalidade da sua obra. Sempre aparecem caminhos, tanto na representação do rural quanto do urbano. O caminho que singra a floresta pode ser uma estrada de ferro, com seus trilhos em uma curva que não permite ver nem a locomotiva, tampouco os últimos vagões. Segue rasgando o despótico verde de uma verdura rasteira e vibrante, que, quedada em silêncio, é testemunha de um percurso cujo destino não se sabe.
Essa presença do caminho também se repete em uma comprida ponte de madeira, unindo dois espaços para transeuntes caminharem em busca de uma rota que também não deixa claro se é apenas uma passagem ou um atalho a culminar em um ponto de onde se encontra o objetivo final.
Acredito que a simbólica do caminho vem ao encontro do que foi discorrido acerca de inquietudes e errâncias. Não podemos inquirir aonde o caminho vai dar, se as pequenas cidades não passam de paradas, não passam de algo belo que denota nossa admiração, não passam de uma estação que teremos de cumprir. Contudo, ainda não é o lugar que procuramos, não é o lugar em que cessaremos a procura e diremos: cheguei, é aqui que eu quero ficar! De tantas metáforas possíveis de serem extraídas da sua obra extremamente variada, criando uma realidade na qual as flores e os frutos detêm um lugar especial, acrescentando à realidade elementos de beleza e graça, também nos deparamos com o signo do caminho. Além disso, podemos apontar o Caminho como uma metáfora na qual se encontra contido o cerne de seus trabalhos.
Com efeito, essas rotas conduzem a imaginar o caminho a ser percorrido. Há de ser estoico e perseverante, abandonando o comodismo, o estar na zona de conforto, sem ânimo nem coragem para ousar dar o primeiro passo, pois toda longa estrada, todo percurso em busca de mudanças, todo o retornar ao já caminhado, percebendo que a senda não era aquela. O retorno exige voltar à encruzilhada e entrar na verdadeira vereda, aquela que o coração indica como certa e que os oráculos interiores, ao serem consultados, reafirmam: chegou o tempo das primícias. Tudo se altera na paisagem do caminho: o perfume das flores, o solo firme onde se pisa, a aragem de experiências ancestrais reconhecidas. Segue-se, apressa-se o passo, esquecendo o que passou de vicissitudes, do que foi tentado e não deu certo, daquilo que se provou apenas por medo da solidão, do tempo perdido com o que, ou com quem, estava ao lado. Seguir por outro caminho denota coragem: a vontade de reelaborar um estado de ser e de se comportar que já não nos diz respeito. Receber o sopro de um novo tempo, buscar fortalecer a autoestima, desvencilhar-se do que houver causado contrariedades, afastar-se do que nos punge e transtorna a alma. A hora é outorgada por nossas necessidades, por nós mesmos, afastando o que fora equívoco, o que chegara com suas alvíssaras, mas cuja máscara, com o tempo, foi derretendo, deixando o verdadeiro semblante reverberar a dissimulação que havia. Todos sabem da impermanência de tudo: do tempo, do espaço, do nosso corpo transmudado, assim como o de outrem. Se a máscara não derrete lentamente, há os que aguardam apenas um tempo de convivência para retirar a persona do rosto. Então, cabe a quem passa pelo luto e pela ausência acumular um naco de recusa e, se tiver coragem, romper de vez, de chofre, ligeiro, buscando um novo caminho. Somente entrar por uma nova picada e formular um novo rumo na mente, seguindo na busca perseverante do que se é de verdade. Não existe pedra tão dura que não se desgaste com o desbaste de uma subjetividade ansiosa por encerrar certas histórias. Assim, a sabedoria serve de material para abrir uma picada, serve de impulso para ultrapassar um passadiço, serve de senda, sabendo de antemão o que interessa. Seja lá o que for, espera-se que não esteja próximo do que exercitou sua mórbida crueldade sobre quem, já olhando para o caminho, não deixou rastro, tampouco objetos pessoais. Quer saber? É hora de cair fora.







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