Por: Márcio de Lima Dantas.
O que lavra a sua terra se fartará de pão,
mas o que segue os ociosos está falto de
juízo.
Provérbios, 12:11
Severino Rufino filho (Olho d’água do Borges RN, 1961) ou Santos Rufino era o quinto filho, o caçula dos agricultores Severino Rufino da Costa e Antônia Francisca da Conceição. Não teve nenhum mestre na arte de lidar com telas, paleta e pinceis. Já exercitava a arte de pintar, sem maiores compromissos, até que foi convidado para participas do 6º Salão Dorian Gray. Sua história de vida é assaz interessante e plena de eventos cuja importância encontrava-se no valor do trabalho, incutido pelos pais de natureza modesta, trabalhavam nas lavouras. Muito cedo forças do bem e da atitude congregaram-se para delinear um contorno de um “menino vivedor”. O trabalho assomou como brisa assoprando para que ocupasse seu tempo na formação escolar, paralelo a isso, teve início sua relação com o trabalho e a responsabilidade de rapazinho outorgando uma grande importância, pois precisava, mesmo sendo um garoto, precisava ajudar nas despesas da casa. Logo bem cedo vendia balas em um tabuleiro, tinha pirulitos enrolados em um papel enfiado em um palito, feitos de açúcar queimado. A responsável pela confecção desses pequenos doces em forma de um cone invertido, bem fininho, era Da. Maria de Antônio Ubaldo. Aos 6 anos começou a dominar as letras com sua madrinha Vera Lúcia. Dominou a carta de ABC (1967) e, no ano seguinte, a cartilha com o título “Upa upa cavalinho”. 1º ano fraco, no primário, com a professora Lindalva Maria da Cunha, no meio do ano foi promovido para o 1º ano forte, com a professora Maria Francisca de Oliveira. Sempre destacando-se na turma, diligente face a seus coleguinhas de classe. Tanto na escrita, como na leitura, o 3º ano foi com a professora Rita Cândido do Carmo. E no ano seguinte ingressou no 4º ano, com a professora Antônia Pereira da Silva. Enfim, chegou ao 5º ano (1973), com a professora Alaíde Leite da Silva. Ficou sem estudar no ano de 1974, pois na cidade não havia o curso ginasial. Mais a vida continua, de um jeito ou de outro, para os que se sentem um tanto assinalados, marcados para debelar as dificuldades, contornar os obstáculos, através da saudável perseverança que habita o íntimo de alguns. Era o caso de Santos Rufino. Com 11 anos ganhou uma jumenta com um par de ancoretas para vender água nas ruas, contribuindo para se manter e ajudar aos pais com os outros 4 filhos. Com efeito, para ocupar o ano de 1974 a Sra. Maria Gomes de Andrade trouxe para Olho d’água do Borges o curso de datilografia, tendo se matriculado, e não foi espanto para ninguém o fato de ter feito o curso sem a presença do descuido e da apatia, manuseando a máquina, seu aproveitamento foi que obteve uma média de 850 palavras em 30 minutos. O certo era que tudo o que fazia, fazia bem feito. Em 1975, fez o Exame de Admissão, passando em 3º lugar para entrar na 5º serie, ou seja, no curso ginasial. No ano de 1980, foi matriculado na Escola Estadual Dr. Edino Jales (Patu RN), cujo ensino dizia respeito ao segundo grau, cursando o profissionalizante Técnico em Contabilidade. Foi coroinha dos oito aos doze anos, também membro da Legião de Maria. Hoje é professor aposentado do estado e professor da rede municipal de ensino. Trabalhou em tudo que se imaginar, cabeleireiro, confeiteiro, Técnico de enfermagem e de Laboratório (presta serviço, hoje em dia) para o laboratório da Policlínica de Umarizal, Dr. Guarani Onofre).
A obra de Santos Rufino é um exercício de um permanente e refinado lirismo, que encanta pelas temáticas que despertam empatia imediata no expectador. Trato de lirismo em termos de “Gênero lírico”, concebida a classificação por Aristóteles, na sua essencial divisão de poesia lírica, elegíaca, épica e dramática. A poesia épica é a de cunho narrativo (Ilíada e Odisseia), a dramática é o teatro (tragédias gregas), finalmente temos a poesia lírica e elegíaca, ambas são de uma mesma natureza, na medida em que é a expressão de um sentimento de um indivíduo quase sempre isolado e tratando de aspectos ou formas de ver, sentir e reagir aos fenômenos que o contornam. Sempre foi bastante claro que não ocorrem os gêneros em seu estado puro. Acontece sim, de invadirem com suas características, seu ethos, às comarcas e limites a qual cada um se manifesta em termos de função preponderante, ou seja, a função da linguagem que sobrepuja as demais para que possamos proclamar como lírico, épico ou dramático. Todo fenômeno literário, tais como uma poesia, detém na sua aura um perímetro que vai até certo ponto, depois, se achega traços de outras formas de poesia, como a narrativa, com sua eloquência ou como a forma dramática, com seus diálogos. Enfim, qualquer forma de arte é sempre um fenômeno pansemiótico, congregando vários tipos de sistemas signos pertencentes a outras formas de manifestações artísticas, sendo que um sempre haverá um sobranceiro. Aqui nos interessa reter o que existe de lírico na poesia de Santos Rufino.
Duas telas são bastantes evocadoras desse que se isola em determinado lugar para melhor tatear o que existe no seu espírito e que favorecem à expressão de uma subjetividade lírica. Fica difícil tratar de lirismo sem evocar os momentos nos quais a poeta Sapho de Lesbos compôs suas canções (contemporânea de Pítaco e de Alceus). Seria a matriz e nutriz do século VI para diante. Encarnou com propriedade a chegada do gênero lírico, já que até ela havia tão-somente o épico e o dramático. Isso sucedeu devido ao Ar do tempo, flexibilizando o que parecia imutável, ao proporcionar uma separação inicial do indivíduo com relação à polis. O que podemos chamar de autonomia de uma subjetividade, o isolar-se em silêncio, em uma benfazeja solitude de expressar por meios externos o que se passava no interior. Quer dizer, a busca de se encontrar, a procura de adentrar por veredas onde pudesse chegar a si, ao âmago onde perfilam-se emoções com, se tiver sorte, descobrir o motivo do desassossego permanente. Assim, com mais conforto, prosseguir na rotina com suas horas e pausas, tarefas, labutas, e não ficar em inquietude do espírito, lançando eventuais melancolias e lutos para o corpo, transformando em enfermidades, em dores sem motivos, em macacoas sem explicação. Enfim, o corpo como o repositório do que o espirito não consegue dar conta, resolver, responder, os enigmas. Os ossos e os músculos pagam um preço alto, apenas sentem. A carne não pensa. Enfim, ocorreu uma individuação de um sujeito que se mira e encontra outras coisas além de um código público a ser seguido, de leis ou de expectativas de determinado comportamento de uma mulher da classe dominante da capital de Lesbos, Mitilene. Até então, entre os chamados homens livres (a mulher não tinha o direito de participar de nada, presa à casa, aos filhos; só uma vez por ano integrava o cortejo em homenagem a Dionísio, seguindo em direção ao anfiteatro, com danças, cantos e pandeiros. O cortejo fazia parte do início dos festivais anuais de teatro, na verdade, era um concurso de tragédias e de comédias. Não havia prêmio monetário ou de objeto de valor, apenas uma coroa de louros.
Assim sendo, as pessoas eram integrantes de um todo comunitário, só com a mudança das relações sociais, foi possível emergir algo que já estava esboçado nos Ditirambos entoados nos cortejos em homenagem a Dionísio, e no coro das tragédias, não mais tratando só do que concernia ao conjunto de pessoas e sua estratificação social. A voz do público, recriminando, questionando o comportamento do Corifeu, depois é que essa estrutura evoluiu para personagens dialogando em cena. Ainda sobre o coro, cantavam hinos acerca do comportamento do Corifeu e das suas reações face ao fato de pertencer a uma comunidade com seus costumes plenos de ancestralidade. Quero dizer que a partir de certo momento (ninguém sabe precisar o século, sabe-se apenas que as condições sociais proporcionaram um substrato para sustentar, como se fosse um baldrame, essa nova forma do Coral tratando de temas íntimos, de como repercutia determinados fenômenos como o amor ou o sexo (Eros). Com isso, o Coro passou a discorrer sobre de sentimentos ou emoções individuais de uma subjetividade que buscava se expressar por meio de um instrumento chamado Lira, deixando um pouco de lado os questionamentos de o Corifeu não estar de acordo com o código de conduta da urbe. Como dizemos: encostando contra a parede. Podemos constatar tudo o que dissemos nessas duas telas: A música interrompida (Anjo com violino e dois pássaros cantando) e Menino com alaúde e cachorro. O fato de estarem representadas duas crianças, não homens feitos, já nos chama a atenção para o singelo e para uma entrega total aos instrumentos como o violino e o alaúde. A inocência e a entrega sem censura de tratar de uma subjetividade, explorando o mundo interior através de uma linguagem cifrada e plena de metáforas, metonímias e signos concernentes ao íntimo de um indivíduo. Sintomático o fato de estarem sozinhos. A referida primeira tela, o anjo menino parou de tocar o violino para ouvir o chirear de dois pássaros que, provavelmente se achegaram por conta da música. É uma cena idílica e plena de um lirismo que Essa tela detém uma grande harmonia pictórica, congregada a partir de apenas quatro cores básicas: o ocre do corpo, o contorno de plantas em verde e um vermelho intenso, encobrindo o jovem corpo com um panejamento de grande beleza. A segunda tela, o menino está com um cão aos seus pés, como se fosse uma companhia. Dedilha o alaúde em grande concentração.
Existem inúmeras telas com paisagens rurais e bucólicas. Vamos nos restringir a uma. A casa sede de uma fazenda na área rural entre Patu e Olho d’água do Borges. Estamos diante de um belo casarão antigo, com sua queda d’água para a frente, como sempre acontece com as grandes casas-sede de fazendas das terras áridas do Sertão.
A herdade é uma obra prima da arquitetura que prevaleceu durante muito tempo nos ciclos do gado e do algodão. Em todos os sentidos. Vejamos como está organizada sua geometria. O ângulo no qual o artista tomou para representar a casa foi muito pertinente no que concerne ao fato de expor todas as linhas riscadas para a edificação da sede da fazenda Bela Flor. Poucas cores servem para dar conta da formosura dessa casa plantada nas brenhas de um sertão vítima de secas cíclicas. Portanto, podemos arrolar as cores: o verde do tapete do gramado que chega até os batentes das três portas. O branco da casa, sendo que as três portas e três janelas estão com contornos azul-celeste. O lado direito da casa têm alguns adornos, como se estivessem à altura do sótão, é apenas uma pequena janela, com contorno também azul e dois pequenos vasos ornamentais; em baixo, um losango azul. Resta o telhado marrom, operando um contraste onde aparecem o branco e o azul. Podemos compreender a tela a partir das principais linhas que conformam a casa, que se torna um centro irradiador, tanto das cores como no que diz respeito à ocupação do espaço. A tela está dividida em três planos, cada um equivalente a um terço. No primeiro terço, prevalece um verde intenso em um belo gramado que segue para circundar uma cisterna branca, para reservar água, também existem muitas árvores e arbustos ao redor da casa. O segundo plano é a casa propriamente dita. Com sua entrada principal, ornada de uma janela e uma porta, com molduras no mesmo tom de azul encontrado nas aberturas (portas e janelas), essa abundância de espaços abertos sugere uma total ausência de medo. Além disso, servem para a entrada de alguma descuidada brisa que passe ali sem rumo, adentre sem permissão, e ascenda para o grande espaço interno que de propósito foi feito em direção ao pé direito muito alto da casa em duas águas. Como se sabe, nos locais onde estavam erguidas as casas-sede de fazendas, no ermo da caatinga, sertões a dentro, o pé direito logo foi um artifício criado para refrescar o interior da casa, o vento entrava e vagava um tempo por dentro. Essas alturas eram forjadas em grandes pilares de madeira, sobre as paredes internas mais firmes da construção. Recurso extremamente simples e eficaz. O pedreiro que ergue a casa da fazenda Bela Flor sabia muito bem das coisas. Dispensava arquiteto. O terceiro plano da tela é um azul celeste no mesmo tom das molduras de portas e janelas, rimando com suas nuvens esparsas, com o branco da casa.
Para encerrar, evoquemos uma metáfora que bem se adequa ao conjunto da obra de Santos Rufino: a proposta de edificar uma realidade com o máximo de lirismo, uma proposta com intensidade máxima de elementos lançando seus vetores simbólicos para lugares onde a harmonia estética de tintas, cores e formas, substituem, ou melhor, estão no lugar de um outro mundo no qual o contentamento detém a plenitude em si mesmo. Quero dizer de uma amiúde insatisfação como o status quo (“o estado das coisas”).
Não é o papel da arte desde sempre? Engana-se quem pensa que a arte tem função. Aparece para dispor e apontar uma forma diferente de contemplar o que nos cerca, o que podemos nominar de “realidade empírica”, quase sempre absoluta em suas intempéries, dissabores, vicissitudes, tudo o que nos causa transtorno e vem ao encontro dos nossos sonhos e da noção particular de felicidade de cada indivíduo.
Com efeito, as telas resguardam o intuito de detalhar como seria essa realidade, cada uma desenha e registra um aspecto do amplo perímetro no qual estão presentes elementos de toda uma sorte de retratos afinados no mesmo diapasão. O timbre de uma realidade na qual o lírico é proposto como substrato de uma outra forma de pensar, sentir e agir.
Há uma infinidade de representações de pássaros, paisagens bucólicas na área rural, ausência da presença humana, araras, beija-flor, pavão, cisnes, flores e frutas. A bem da verdade, tudo diz respeito às temáticas, aos referentes, que integram a História das Artes, sendo que o artista articula à sua maneira, de acordo com sua experiência pessoal, os percalços pelos quais teve que enfrentar, e ser perseverante, e ser resiliente, e ser teimoso, e ser insistente. Pois quase nada na vida consegue não entregar o que se apresenta como espécie de baralho. O indivíduo tem que saber jogar com a sintaxe das cartas, através da compreensão de uma lógica subliminar, na qual cada partida é uma partida, detém suas peculiaridades. Assim é o jogo da vida. “Vivendo e aprendendo a jogar” (Guilherme Arantes).
No que diz respeito aos temas dos quadros, aqui já arrolados, parecem pertencer ao Inconsciente Coletivo da trajetória das artes ao longo da sua comprida trajetória de estilos históricos, que emergem de acordo com as condições de vida. A arte instaura-se como ampla planície sensitiva, na qual nascem suas obras, rebentam e configuram através das imagens uma ruma de símbolos que dizem respeito a cada indivíduo, mas tem que ver o fato de um singular organizar um grande coral do plural.
Urge proclamar que quanto mais universal a obra de arte, maior o seu valor como estética representativa por meio de formas, texturas, cores, de um todo, de um expressão que diz respeito não a uma pontuação geográfica ou temporal. A obra de arte legítima transcende tempo e lugar, chanta seu número e algarismos nas alamedas que conduzem ao futuro. E o que virá é o chão onde grandes livros ilustrados mostram com orgulho os nomes daqueles que não passaram sem deixar seus rastros, seus reclamos, nas rodagens inscritas nos anais da História da Arte.








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