Por Márcio de Lima Dantas.
O artista Damião Costa (São Vicente, RN, 1987), desde a infância, quando os olhos se detinham nos leilões televisivos de pintura, pressentia, ainda sem nomear, o fulgor de uma vocação. Autodidata no desenho, guiado mais pela intuição do que por método, haveria, contudo, de encontrar orientação nas mãos de um mestre distante, João Rodrigo, de Santa Fé do Sul (SP), cuja presença virtual lhe abriu as fendas do ofício e lhe revelou os artifícios secretos da cor e da forma. Por intermédio duas amigas generosas, Vera Lúcia Lobo e Sônia, que lhe custearam o aprendizado, iniciou-se na pintura a óleo sobre tela, tendo como instrumentos tintas Corfix e Acrilex e o pincel como extensão natural da alma. Desde então, o gesto, antes hesitante, transformou-se em verbo visual, e o simples ato de misturar pigmentos passou a equivaler a um modo de compreender o mundo: corpo, mente e espírito alinhados no mesmo compasso. Com efeito, é mister dizer que o universo pictórico de Damião Costa se estrutura sobre a ausência da figura humana — uma ausência que não é carência, mas plenitude. As suas telas são espaços onde o humano cede lugar ao respiro da paisagem, à mudez eloquente das coisas simples: um copo e um limão, uma casinha solitária, um barco à deriva, a luz de um amanhecer rural. O que vibra nessas composições é a delicada liturgia do instante, o reluzir de um reflexo na água, o brilho luzidio da fruta madura, a transparência do copo que guarda o silêncio. Há ainda, em suas telas, um diálogo tácito com a própria ideia de tempo. O tempo, em Damião, não corre. Suas telas parecem suspender Cronos, esse deus apressado, e devolve-nos a lentidão de Kairós, o tempo da oportunidade interior. Em cada Casinha à beira da estrada ou Vida no campo, sentimos que o artista restitui à imagem o seu direito à duração. O instante, cristalizado na tela, converte-se em eternidade sensível. É o mesmo gesto dos monges que, ao varrerem o chão de pedra, transformam o ato banal em contemplação. Assim também o pintor: seu trabalho é uma forma de meditação materializada em pigmento. E, cada cor aplicada, ora densa, ora translúcida, é como um mantra visual, repetido até que a tripartição corpo, mente e espírito se unam no mesmo compasso de luz. Ora, vivemos tempos em que a pressa é o novo dogma, um estilo de vida, a nova liturgia. Tudo é instantâneo, volátil, substituível. Neste cenário, a pintura de Damião Costa resiste como um gesto de lucidez. Ela nos ensina a olhar novamente, a desacelerar o pensamento, a ouvir a respiração do mundo. Com efeito, em um tempo que busca o espetáculo, ele escolhe o sossego. Em uma sociedade que confunde valor com visibilidade, ele trabalha na penumbra, no silêncio das horas no qual o espírito se faz mais nítido e queda se em necessário sossego. Por isso, suas obras não precisam de alarde, bastam os murmúrios. Elas reluzem, mas com a luz suave das coisas que não têm pressa de se mostrar. E, se há algo que atravessa a obra de Damião Costa, como um rio subterrâneo a murmurar sob as cores, é a luz. Não aquela que cega, mas a que revela. Não a luz do meio-dia, brutal e sem mistério, mas a da aurora e da tarde, quando o mundo parece lembrar de si. É uma luz morna, que não incide, envolve tudo ao seu redor. Ela se insinua nas dobras do horizonte, acaricia os contornos das casas, toca o espelho das águas com o pudor de quem pede licença. Portanto, a luz, em Damião, não é mero artifício técnico: é linguagem. E o que ela diz é silêncio. Cada quadro parece sustentar uma respiração contida, como se o mundo inteiro, por um breve instante, tivesse parado para ouvir o próprio coração. A luz não ilumina o objeto, escuta-o. Ouve a dinâmica do campo: a palha, a pedra, a fruta, o azul rarefeito do céu. Perscruta até o que já não soa. Há, nesse modo de pintar, algo que remete ao que Gaston Bachelard chamou de “poética do repouso”. Esse instante no qual o olhar se recolhe para dentro das coisas e descobre nelas uma morada. Em Amanhecer na roça, por exemplo, o dia não começa: é anunciado pela deusa Eos (Aurora), como quem abre lentamente uma janela sobre o passado. Em Casinha no sítio, a luz parece vir de dentro das paredes, como se a casa tivesse alma. Entre as muitas paisagens do artista, há uma que se destaca não pela cor ou pela técnica, mas pela densidade simbólica que nela habita. Estou falando de Barco à deriva, a tela em que o artista parece condensar toda a sua metafísica do silêncio, todo o rumor contido de sua poética. O barco, isolado sobre um lençol de águas imóveis, sem vela, sem remos, sem tripulantes, é mais que imagem: é emblema. Nesse sentido, nesse barco que flutua entre o céu e a água, podemos reconhecer algo do destino humano: a consciência de estar lançado em um espaço sem porto, conduzido por forças invisíveis. É o mesmo sentimento que anima os versos de Fernando Pessoa quando escreve, em Mensagem: “Deus ao mar o perigo e o abismo deu / Mas nele é que espelhou o céu”. Eis o paradoxo que o pintor parece intuir com o pincel: o risco e a beleza coexistem na mesma superfície. Em Barco à deriva, o horizonte é amplo, mas a travessia é íntima. Não há vento, nem rota, nem promessa, apenas o flutuar. E é nesse flutuar que a tela se torna espelho: o espectador vê-se ali não como passageiro, mas como o próprio barco, entregue à correnteza do tempo. Assim, a pintura, mais do que representar, experimenta o existir. É expressão do ser. Na verdade, não se trata de um naufrágio, mas de um estado. O barco não está perdido, está em repouso. É uma imagem de suspensão, um instante anterior ao verbo, quando o mundo ainda não precisara de nomes. Damião pinta à deriva como quem compreende que o destino não é chegar, mas permanecer em travessia, que o repouso é também um modo de seguir. A paleta é sóbria, quase ascética: azuis dissolvidos, ocres pálidos, brancos que lembram o brilho do sal. Tudo ali parece conter uma luz que não vem do sol, mas do próprio interior da água. A serenidade do quadro é quase litúrgica. Por isso, Barco à deriva não é apenas paisagem, é quase uma confissão. Há algo de litúrgico nessa imobilidade. Como se o pintor houvesse percebido, à maneira dos antigos místicos, que a salvação talvez resida na aceitação do fluxo. O barco, sem timoneiro, torna-se figura do abandono fecundo no instante em que o homem, cansado de querer governar o mar, entrega-se à deriva e encontra, enfim, o centro do círculo. Dessarte, o que há nesse quadro é uma ética da contemplação. O artista não pretende narrar a aventura do homem sobre o mar, mas o instante em que o mar o contempla de volta. E nesse olhar recíproco, nesse encontro mudo entre água e consciência, a pintura realiza o que a filosofia apenas ensaia: a reconciliação entre o visível e o invisível, o finito e o eterno. Portanto, a opus magnum de Damião Costa é também sua metáfora definitiva: a arte como deriva, o pincel como leme entregue ao vento, o olhar como vela aberta ao acaso da luz. O artista não conduz, é conduzido. E talvez seja por isso que suas telas nos devolvem ao essencial: o sossego de quem, habitando o tempo de Kairós, compreendeu que não há porto mais seguro que o instante presente. Vale a pena ressaltar também que o universo pictórico do pintor nos conduz a um espaço onde a presença se faz sentir justamente pela ausência. Suas telas não precisam de figuras humanas para transmitir emoção, pelo contrário, é no silêncio que se revela a densidade de sua arte. Cada plano de luz e sombra atua como uma respiração pausada, um instante suspenso em que o tempo parece desacelerar, como se Cronos tivesse interrompido suas largas passadas para nos permitir habitar, ainda que por momentos, o ritmo próprio do olhar do artista. A ausência de figuras humanas não é vazio estéril: é convite à reflexão, espaço para que o espectador projete memórias, sentimentos e reflexões. As cores, densas ou translúcidas, funcionam como ponte entre o visível e o invisível, entre o real e o imaginário. Há nas suas paisagens e composições uma espécie de arquitetura silenciosa, em que cada elemento dialoga com o outro e com o espaço que os rodeia, estabelecendo uma comunicação íntima, empática e quase secreta para quem observa. O silêncio de Damião é também presença: ele nos força a ouvir o que não é dito, a perceber a matéria em sua própria essência, a perceber a luz não apenas como instrumento de visibilidade, mas como matéria sensível capaz de tocar e transformar o olhar. Nessa dimensão, a pintura se aproxima da poesia e da filosofia, transformando cada tela em reflexão sobre o tempo, a memória e a percepção do mundo. Em última instância, a obra de Damião Costa nos lembra que a arte é também experiência, tanto quanto representação. A ausência é presença, mais do que vazio. E, no diálogo entre luz, sombra e silêncio, encontramos um convite a assuntar não apenas o mundo que vemos, mas também o mundo que sentimos e imaginamos. É nesse limiar, entre o visível e o invisível, que sua pintura nos revela a plenitude de uma sensibilidade profunda, capaz de transformar o simples ato de olhar em experiência de imersão e descoberta. Eis o sentido maior de sua obra: ser um abrigo contra a azáfama contemporânea, cujo Ar do Tempo não nos deixa enganar, haja vista presenciarmos uma realidade com toda espécie de invenção, ilusões, simulacros, felicidade artificial. Uma lembrança de que o humano só reencontra a si mesmo quando silencia. Suas telas não apenas representam o mundo, elas o regeneram. São convites à quietude, exercícios de presença, lampejos de eternidade. Em tempos de pressa e desatenção, Damião Costa nos devolve o dom de ver. E ver, em sua pintura, é um ato de fé, a crença silenciosa de que a luz ainda é capaz de revelar o sentido oculto das coisas. Suas telas parecem confirmar a lição de Heráclito: “tudo flui”, mas há fluxos que só a quietude é capaz de perceber.
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