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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Especial:João Andrade: o vergado arco da geometria nos objetos de arte.

 Por Márcio de Lima Dantas.


Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nella ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?


Fernando Pessoa





João Andrade (Natal, RN, 1962), desde pequeno, já criava imagens, mas não ficava só nisso. Procurava enxergar aquilo que não era visto por parte da população. Uma coisa é olhar, outra é ver, enxergar. E assim o fazia, buscando no seu entorno: nuvens, raízes, manchas, por assim dizer. 

Também não sabia os motivos que o impulsionavam a seguir esses vetores, sabia que vinha de suas entranhas, dos lados recônditos do seu íntimo, das vísceras. Talvez não tenha havido época tão propícia a ser representada pela arte abstrata, ou seja, romper com o realismo acadêmico, encontrando os objetos a serem postos nas telas, por exemplo. Quer seja o Geometrismo Abstrato ou o Geometrismo Lírico, no sentido de que a realidade, com grande força, se permite não ser retratada, haja vista uma dificuldade que inibe o papel de sempre detido da arte: propor uma outra forma de ser, determinar outro mundo, outras divisões, reorganizar, tendo em vista o fato de que a convivência com o tangível, aquilo que se apalpa através dos sentidos, não mais satisfaz. Então, eis uma outra realidade, mas que todos sabem que é coisa de um mundo inventado. A arte é essa outra coisa, é esse jeito de ser diferente, mesmo que não passe de pura abstração ou metáfora. O que interessa é um outro lugar, mesmo que seja uma tela em uma parede. Em uma época como a nossa, proporcionadora de emergir construtos artísticos mais relacionados às formas que não existem, chegando aos limites de reter paralelo à realidade, com parecenças que remetam a objetos de uma realidade que nos circunda. 

Quando quase todos, em uníssono, indagam-se sobre o que se passa nessas horas que mais se assemelham a uma espécie de ponto de mutação, de transformação, de um devir que também tantos buscam: onde se vai parar ou quais serão as formas de ser ou estar, de indumentárias bizarras, de alfaias recobrindo os altares onde poucos tentam buscar respostas. A grande maioria segue sem deixar rastros.

O certo é que predominam no perímetro do terreno no qual a arte sempre encontrou seu tino e seu viés, de emergir tendo em vista as terras férteis, de onde reverberam seus arbustos, suas folhas e suas flores. Isso é o que sempre ficou conhecido como Abstracionismo Lírico, formas nas quais predominam as ondulantes linhas curvas, em tentativas vãs de imitar o que circunda na chamada realidade, nunca alcançando esses informes fenômenos ou objetos estáticos, como se fossem monólitos fincados, em uma espera silenciosa, nos chãos áridos das terras ermas. Ademais, pode-se acrescentar elementos, tais como a texturização: dar relevo com massa ou tinta a uma superfície da tela. Ou ainda, modelagem sobre tela: fazer o molde em relevo de uma peça (um rosto) sobre a tela. 

E para encerrar, podemos evocar os trabalhos nos quais, mesmo sendo de natureza abstracionista lírica, sucede uma parcimônia de meios para organizar um trabalho com espesso minimalismo e grande simplicidade, fazendo saber através de cores vibrantes como se escorressem dentro de limites estritos, de retângulos verdes ou de um azul-real, reverberando sua luminosidade e cintilação, reforçadas pelo intenso contraste de um vermelho sangrando gotas, a descer na vertical. O melhor disso tudo é o quanto simples pode vir a ser uma obra de arte, quando se faz uso de poucos ornamentos, quando as tintas sangram apenas para um lado, proclamando no seu deslizamento uma vereda de salpicos e poucos Campos de Cores a serem preenchidos, já que o emprego de algumas cores basta por si, pela sua magnificência, por tão pouco o quanto foi feito uso. 
E assim basta para circunscrever a planície que uma ideia havia de antemão determinada, sem maiores elementos decorativos, pausada em linhas quase sempre curvas. Fazendo ver, reiterando que não passa de Geometrismo Lírico, cuja opulência insiste em afirmar a predominância da linha curva, de meios circundantes, das formas orgânicas e de quase nenhuma atração pelos ângulos retos, lançando sua simbologia para a delicadeza, feito sépalas e pétalas de flores. 


















quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Especial: Sarah: a paz do branco e a empatia do amarelo proclamam o silêncio

Por Márcio de Lima Dantas.


E esta ânsia de viver, que nada acalma,

E a chama da tua alma a esbrasear

As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca




Sarah (Natal, RN, 1986). Quem sabe ela poderá falar por si, já que seu domínio da língua portuguesa é de uma grande elegância e plena de ideias que desenvolve de maneira escorreita: “Na minha vivência, não separo o fazer artístico do próprio movimento da vida. Acredito, inclusive, que a maioria das infâncias evidencia pequenos artistas e cientistas. No entanto, o desenvolvimento da arte a partir de uma perspectiva técnica começou mais recentemente, quando passei a aquarelar em busca de novos resultados, por volta de 2015”.

Nada mais tangível do que a assertiva concernente a determinadas crianças que já nascem assinaladas para percorrer as veredas do dom artístico ou mesmo a capacidade de tomar atitudes face às ciências naturais, engendrando a posteriori pesquisadores de múltiplas áreas. É como se o germe, desde a mais tenra infância, buscasse o despertar de atravessar determinadas veredas, como se não houvesse outro caminho. Para tanto, o espírito se organiza paulatinamente até fechar determinados ciclos vinculados a certas áreas do conhecimento. Assim também vigoram os vetores da arte, da mesma maneira que os cientistas, como se fosse uma obrigação a cumprir, diferente de outros indivíduos que seguem mais uma linearidade do viver, limitando-se a nascer, crescer, se reproduzir e, finalmente, falecer. Outros buscam certos caminhos que os fazem inventar, descobrir ou se expressar através da arte e dos seus meios, enriquecendo a realidade por meio de um acréscimo que outorga outra forma, outra maneira de ser, outra maneira de retratar o que seria bastante diferente do real que se apresenta na sua rotina e na sua entrega de vivenciar o que todos repetem, como se fosse um refrão mais do que tedioso.

Vejamos como isso se expressa na obra da artista visual Sarah. Ela traduz para o papel ou para as telas sempre os mesmos temas, os mesmos referentes, com um discreto hieratismo: vasos com flores e folhas e folhagens, pássaros solitários, ladeados por delicados arbustos. Ou seja, mantém suas preferências em um vocabulário que, ao mesmo tempo, nada inova, mas também não se permite repetir-se ou imitar-se. Torna-se diferente por uma paleta de tons sempre com nuances delicadas, de bege, creme ou marfim. Imprime na tela ou no papel uma suavidade e delicadeza que suspende tudo o que é retratado para uma planície na qual hiberna como se fosse. A cor creme é o resultado da fusão da cor branca com a cor amarela, detendo uma simbologia cuja fusão resguarda a pureza e a placidez que aporta em si, quando límpido. De outra parte, se achega a cor amarela com seu viés de empatia e receptividade. Essa mescla só pode resguardar algo suave e de grande preciosidade. A artista manuseia várias técnicas, quer seja lápis de cor, aquarela, óleo sobre tela e acrílica sobre tela, nunca se distanciando de sua paleta de tons puxados ao bege, mesmo que algumas cores, como azul, vermelho e lilás, todas muito esmaecidas, pareçam refratar um tanto ou fugir da circunscrição de sua preferência. Ocorre que o uso do delicado desenho e dessas aludidas simbologias torna tudo eivado de uma aura um tanto hierática, paralisada, como se houvesse uma espécie de adorno para constar em alguma parede. Com efeito, essa suposta configuração que se lança em direção ao adorno detém, em uma série de vasos com flores, uma graça, delicadeza e requinte que chegam circundados por molduras duplicadas, determinando uma ousadia que ressalta o vaso com suas flores como fulcro do trabalho, proclamando para onde o olho deve se dirigir, na medida em que é o cerne de cada conjunto. Ou seja, seu ponto básico, circundado por dois pássaros em uma simetria bilateral, chama a atenção pelo amplíssimo silêncio, como se fosse uma busca de estancar o tempo. Daí essa ideia de não haver movimento em quase nada retratado: tudo, desde o menino com duas bananas na cabeça, a mulher com pássaro rodeada de flores vermelhas e folhas verdes, cujos olhos e cujas bocas nada aparentam de um esboço qualquer de movimento.

Apenas quedam-se a mirar em uma espécie de torpor, perfazendo um semblante que mais parece medir uma longínqua distância, sem nada insinuar ou esboçar qualquer coisa que não seja o não-dizer, a quietude de quem resguarda nenhum segredo.


Há uma outra presença em todo o conjunto da obra de Sarah: é o triunfo da linha curva, imprimindo uma qualidade feminina por oposição à linha com seus ângulos retos. Consabido é que os ângulos retos, nas diversas formas de arte, manifestam-se como o distrito do masculino, por oposição à linha curva, ondulante, orgânica e inquieta. Essas formas de representação estão inscritas no imaginário e nos regem no cotidiano e em nossas trajetórias de vida, manifestando-se através da mitologia e dos arquétipos que se encontram nas mais profundas locas, hiatos e lugares de onde emergem para nossa consciência, por meio das manifestações e expressões da arte ou de outros meios, tais como a linguagem que nos organiza e nos ordena a ser e estar de determinadas maneiras.

Ora, essa assertiva dirá, no nosso caso aqui, como perfazendo planos e cores 
de uma delicadeza, lançando-se para os lados de tudo o que resguarda a calma ou o silêncio, bem diferente da inquietude que se move buscando direções de ventos em uma busca de lançar-se à procura de direções que nem sempre se sabe do que se trata ou sopra qual ventania sem rumo. Em suma, mais vale estar quieto em seu estado de mudez, não que queira obliterar nada, não que queira fazer do silêncio um subterfúgio para esconder determinadas circunstâncias, nem que o silêncio esconda certos segredos, certas formas de ser, preferindo uma quietude que não passa de resguardar-se, para deter o bote da surpresa. Com efeito, é preferível esse tom bege que permeia toda a obra da artista visual Sarah, resultado das bodas do branco da paz e da singeleza do amarelo. Eis aqui o magnânimo do silêncio, através dos olhos, por meio da boca, configurando um semblante de rara beleza, de fina estampa.