quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A História do Folclorista João de Artur e o seu Boi de Cortejo.

João Artur é natural de Patu, nasceu aos 31 de julho de 1937, filho de Artur João e dona Alexandria. João Artur é casado com dona Rita Alves onde tiveram nove filhos, cinco homens e quatro mulheres. Durante muitos anos ele exerceu a função de capoteiro onde tirava o sustento de sua família. No ano de 1976 ele lendo uma revista, viu uma reportagem que dizia que a "Diversão era Necessária". Ele ficou com esse pensamento na cabeça e despertou nele a ideia de criar um Boi de Reis para promover a alegria em eventos culturais da cidade e da região como por exemplo: Carnavais, festa da padroeira ou quando fosse convidado para participar de comemorações especiais ou nas vitórias de candidatos eleitos em algum pleito. Seu João dizia que o Boi era convidado para comemorar a vitória seja lá o lado que vencesse a eleição, o importante era a alegria de comemorar a vitória.  
No ano de 1976 seu João de Artur recebeu o incentivo e apoio do jornalista, vereador, desportista e  promotor cultural, Miguel Câmara Rocha que ajudou ao mesmo a realizar o sonho de confeccionar o seu Boi e em seguida a cavalinho.
Em uma matéria especial publicada no Jornal de Fato e na Tribuna do Norte, através do jornalista César Alves, um pouco da vida de seu João de Artur  foi apresentada aos leitores. 
A reportagem dizia o seguinte: 
"Um senhor negro, franzino, usando óculos escuros caminha devagar pela Rua da Capela, no bairro Santa Teresinha, periferia de Patu. Veste bermuda verde e uma camisa azul (de botão), sandália havaiana e um boné. Este é o jeito de ser e se vestir de João Artur, de 73 anos, (na época, hoje 80 anos) um dos últimos artistas da região Oeste do Rio Grande do Norte que mantém viva a cultura de sair às ruas vestindo boi de reis e bonecos gigantes. "Aqui na região não tem mais quem procure proporcionar a alegria da meninada se vestindo de boi de reis e bonecos gigantes", diz Arlindo Nogueira, o comerciante que se encarregou de apontar o endereço onde ele morava.
Estirou a mão para o cordial cumprimento com o repórter e foi logo lembrando: "de primeiro vocês vinham mais em minha casa. Hoje quando aparece é por acaso", disse em voz mansa. De fato, foi por acaso. A ideia era fazer uma reportagem retratando as dificuldades do bairro e o caminhar do artista, que já esteve até com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, chamou a atenção pelo jeito simples que cumprimentava a todos por onde passava. "Aqui ele é alegria em pessoa, mas tem mudado muito nos últimos anos", diz Arlindo Nogueira.


João Artur mora com a esposa Rita Alves numa casa de esquina, com um pé de algaroba fazendo sombra em frente. É tudo muito simples. Sem luxo. Um rádio de pilha, um TV de 14 polegadas, um sofá e um painel de fotos na parede que o faz lembrar, dos tempos que era convidado pelos prefeitos - de quase todos os municípios do Rio Grande do Norte - para ministrar palestras e aplicar o que ele chama de “elixir” da alegria, que consistia em sua apresentação de gala com bois de reis e os bonecos gigantes representando a imagem de Câmara Cascudo e Gabriela.
O artista - que já foi capoteiro, sapateiro e marceneiro - segue esta rotina desde 1976. "Eu vi uma notícia no jornal dizendo que a diversão era necessária e que as pessoas precisam viver com alegria, precisam sair de casa para brincar na praça, dançar forró, ir à missa, ao culto, se divertir", explica João Artur de como teve a ideia de construir o boi de reis para sair à rua divertindo a criançada e também se divertindo. "Não existe nada mais gratificante do que ver a alegria no rosto das pessoas, das crianças", explica seu João de Artur.
Depois, o amigo Ricardo Veriano construiu o boneco de Câmara Cascudo, em homenagem ao grande folclorista potiguar. "Aí eu construí Gabriela, em homenagem a minha irmã, para fazer companhia a Câmara Cascudo nos meus desfiles pelas cidades. Também tenho o Jaraguá, que na verdade é uma figura de jacaré", diz João Artur, que quando era convidado para fazer apresentações levava um grupo de mais ou menos 60 pessoas e puxava centenas pelas ruas de Patu e das cidades por onde se apresentou nos últimos 40 anos. "Até pra Lula eu já me apresentei", diz mostrando a foto.
Nas décadas de 80 e 90, João Artur mantinha uma agenda de apresentações. Era regra a turma se reunir para se apresentar no carnaval e na vitória das eleições, não importando quem é o vencedor, João Artur está lá com seu boi de reis e o casal de bonecos, Câmara Cascudo e Gabriela, se divertindo e divertindo as pessoas pelas ruas. Paralelo a estas apresentações, a esposa Rita Alves conta que João Artur recebia convites para se apresentar em escolas e inúmeros eventos, em quase todos os municípios do Rio Grande do Norte e Paraíba.
Mas a cultura de João Artur está perdendo o gosto. Ele agora recebe poucos convites para abrir festas de carnavais nas cidades. O último foi em Caicó, no Bloco do Magão há vários anos. Os bonecos estão guardados num quarto ao lado da casa a contra gosto da esposa  Rita Alves. "Mas isto aí é a vida dele, ninguém toca sem que ele esteja por perto para providenciar o zelo necessário", diz Rita, enquanto João Artur reclama da falta de apoio da iniciativa pública para espalhar o gosto popular e aplicar o “elixir da alegria” e espantar a tristeza pra lá, diz.
João Artur disse que tem uma preocupação: quem vai sucedê-lo? O meu grande amigo Epitácio Filho disse que vai continuar, mas sinto desinteresse dos mais jovens. Às vezes, é preciso pagar para a pessoa sair com os bonecos. Eles não saem mais pela diversão para se divertir. Também praticamente não existe mais apoio dos prefeitos para sair divertindo nas ruas. "A gente vai no comércio e alguns poucos dão ajuda", relata João Artur, reconhecendo que fazer o que ele faz para manter a cultura do boi de reis na região do RN é muito difícil.


Seu João de Artur já esteve participando de programação cultural com o cantor Lobão no ano de 2001 bem como participou do Festival Alternativo de Pipa a convite do escritor e pesquisador Social Epitácio Andrade Filho, um dos incentivadores, divulgadores e apoiadores do seu grupo folclórico. O Professor Aluísio Dutra de Oliveira, que é casado com a filha de seu João de Artur, Maria Luciene Alves de Oliveira, também tem essa missão de divulgar e apoiar na participação em eventos culturais estando ao lado de  seu João de Artur organizando o seu Boi de Cortejo para mais um desfile.
O Boi de Reis em sua história passou por duas reformas, em se tratando de ornamentação e adereços, uma aconteceu na gestão do então prefeito Possidônio Queiroga da Silva Neto e a segunda na gestão da prefeita Evilásia Gildênia de Oliveira sendo que nas duas reformas ficaram na responsabilidade do artista plástico Ricardo Veriano. 
No ano de 2017 a APLA - Academia Patuense de Letras e Artes prestou homenagem ao Folclorista João de Artur concedendo ao mesmo o título Honorífico de reconhecimento pelos relevantes serviços prestados a cultura do município de Patu e ao Estado do Rio Grande do Norte. 
A história de seu João de Artur se confunde com a história do seu grupo Folclórico que ele tanto ama. O poeta José Bezerra de Assis assim descreve em poesia o Boi de João de Artur.

Autêntica expressão folclórica
Da cidade de Patu
Tem sido ao longo do tempo
O boi de João de Artur.

Criado há quarenta anos
O único da região
Que do carnaval de rua
Sempre fez animação.

João de Artur criou o boi
Expressando a arte pura
Com o grande objetivo
Manter viva essa cultura.

Quando o grupo sai às ruas
Felicidade irradia
Isso João de Artur chama
Elixir da alegria.

Suas apresentações
De muito tempo já vem
Aqui e noutras cidades
E na Paraíba também.

Na cidade Caicó
Já fez apresentação
Fazendo parte do bloco
De folia do “Magão”.

No grupo além do boi
Tem a burrinha do João
Os dois bonecos gigantes
Gabriela e Cascudão.

Jaraguá também faz parte
E mais outros animais
Esse tipo de cultura
É pouca gente que faz.

O grupo do boi diverte
Crianças, jovens, coroas
Em si já chegou juntar
Até sessenta pessoas .

Hoje João de Artur não vê
Ninguém pra lhe apoiar
Por isso, uma vez por ano
Sai às ruas do lugar.

Sempre lembra e tem saudade
Daquele tempo que foi
E diz que enquanto viver
Faz tudo para manter
Essa cultura do boi.

Autor: Zé Bezerra














Reportagem de Aluísio Dutra de Oliveira e César Alves – Jornal de Fato e Tribuna do Norte.




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